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maio 28, 2013

Homo Politikus Sapiens.

Agir politicamente deveria ser uma das esferas da vida, assim como o emocional, espiritual, racional, psíquico, etc. Quanto mais houverem descobertas sobre o “plano” existencial do que fazemos. O ser humano é múltiplo em todas suas dimensões, não há porque se dedicar apenas a uma, se limitar em uma,  esquecer e minimizar as outras potencialidades, todas as habilidades não exploradas, nem sequer descobertas. Em tudo o que fazemos, tem repercussão interna e externa, tudo vem e volta pra sociedade, e pra o individuo, o formador de sociedades. E tudo importa, Antropologia, Psicologia, História, Política, ciências tal e tais. Procurar o desconforto, caçar a inquietação, investigar as angústias, transformar em arte, em movimento, palavras, tato, em beleza: é terapêutico. A política não é restrita à movimentos políticos, apenas. Também é, e talvez, o conjunto de idéias pensantes, em engajamento e conflito saudável, gerador de sementes em planos de ação. Pessoas com idéias e ideais em comum, com ânsia de se organizarem, sim, mas não somente. Política faz parte do dia de qualquer um, do cotidiano; você sai de casa, e atravessa o transito caótico de sua cidade, vê infrações, vê gente nas ruas, expressões tensas, cabisbaixas, vê greve daquilo lá, um outro ajudando alguém, no centro da cidade mil outras pessoas na multidão tentando se expressar, vê manifestações do indivíduo no meio da multidão. A gente tem que ser militante de atividades do mundo, captador das antenas visíveis e invisíveis dos anseios, dos desejos, dos dizeres das pessoas.

Organizar-se em si mesmo e ser portador da expressão. Isso é ser um comunicador, político, psicólogo, alguém que se movimenta e absorve os quereres vadios, mundanos. Abarcar o conhecimento e transformar em algo. Se se compreender interesses públicos, civis, do cidadão “normal” e em seguida, simultaneamente o de seu sistema de governo, sua participação sobre outros é efetiva. Por exemplo, ler o jornal, e ver o que acontece além das linhas. Porque é além das linhas que está o pensamento econômico e político, de poder atuante. Observar o sintoma neurótico é, observar o sintoma total de uma família, que se organiza de tal maneira que um ou uns, são mal adaptados, por conta da educação, (ou falta desta), de valores, de formação e condução mal resolvidos, hierárquicos, socialmente incapacitantes, neurotizantes.

O ser humano é um ser antes de tudo desejante de algo, esse algo é constantemente substituído por outro algo, e desejamos coisas possíveis e impossíveis, mas não existe deixar de desejar. Na série “Two and a half men”, o personagem de Charlie Sheen quer achar uma solução para problemas de ereção. Uma psicóloga lhe dá duas opções. Fazer análise ou ser hipnotizado. Ele escolhe a segunda, e ela pergunta: “sua saúde mental não é mais importante que alguns orgasmos?”
Charlie responde “Não é mais importante nem mesmo do que um”. Se ele procurasse o francês Lacan ia ouvir sua famosa frase “você não é obrigado a gozar”. Mas e daí..? Não é obrigado, mas gozar é muito bom, e ficar impossibilitado de gozar é a maior violência pra ele, então discordo dos psicólogos que acham que o prazer é tirânico, juntamente com as teorias que ampliam ou reduzem o gozo a depender da conveniência. Devemos gozar totalmente, amplamente, infinitamente com toda a potencialidade do corpo, espírito, razão, emoção... Sem economia de um ou de outro, fisicamente e politicamente incluídos. A capacidade de gozar da (e com a) vida, é o objetivo e o próprio caminho a seguir, o fim e a circunstância que permite a.  
Se eu quero muito algo, seja alguém, seja mudar minha realidade, coisas que podem ser perigosas, coisas que seriam imorais, quero e não consigo, tento e sou frustrado, consciente ou não, ameaçado, o castigo social encurrala, oprime, desgasta as tentativas, e logo não irei mais tentar. Vou alucinar, vou delirar, posso entrar em pânico, deprimir, mas irei sonhar e desejar, o desejo ficará sublimado, ou latente. Mas não morto. O desejo não morre nunca, se transforma em outra coisa. Mais socialmente aceita. Um sistema político “cuida” de nos acariciar a cabeça, enquanto nos mostra outra coisa pra desejar, nos confunde para direcionar o desejo. Aprendemos a ser contornados, direcionados para que nosso desejo primitivo e original seja canalizado para atividades politicamente ajustadas ao sistema. Na verdade nos tornamos passivos. Corpos dóceis ou imbecilizados de tanta mansidão. Um sintoma neurótico particular é o mesmo do todo coletivo. Aprendemos a nós mesmos já fazermos o contorno e a tradução do querer, e amparados pela TV, compras, mídia, comida, sexo... Uma agência de controle social ajuda outra. Uma mão lava a outra, e todas se exoneram juntas. Todas se dão as mãos numa rede que conspira a passividade e o bem-estar social. Modificadores sociais tem espaços garantidos como facebook, um blog inócuo como este, uma galeria de arte, jornais esquerdistas(o que quer que isso signifique hoje), teatros, e por aí vai.
Que são espaços igualmente sociais, adequados e aceitáveis. Como o playground da subversão. Podem ser inconseqüentes aí, podem ser heróis e marginais, berrar, protestar, fazer músicas, quaisquer expressões, desde que não invadam o trânsito, a notícia não vá parar em jornais de grande circulação, a CPI ou o impeachment vire nada ou um cartum no máximo.
Os que conseguem ser vistos e ouvidos, os subversivos, iconoclastas, anarquistas que transbordam de gozo de mudanças, podem ser presos políticos, terapeutas marginais, artistas “de rua”, de palavra vagante, atores do absurdo possível, crível do real. Indutores de transformação, capacitadores de corpos rebeldes, e mentes idem. Vou pensando, sentindo e gozando com estes.



2 comentários:

  1. Me fez pensar na palavra revolução. O sir Aurélio a define da seguinte maneira: s.f. Ato ou efeito de revolucionar ou de revolver; sublevação, rebelião, revolta, insurreição: muitas foram as revoluções liberais do séc. XIX.
    Sim, ao longo da história esses “subsignificados” do Aurélio nos remete a guerras, repressão, prisão, perseguição, morte. Mas nos remete também a paz, amor. Figuras que vieram pregar o O Love and Peace como o melhor caminho a ser trilhado. O melhor caminho? Existe? será? Me lembrei de Jung que diz que enquanto houver vontade de poder não haverá amor, e se nao houver amor? Acho que no mínimo ainda nos depararemos com muitíssimas pedras no caminho. Há quem diga que poderíamos juntar todas elas e la no final "todos juntos" construirmos um castelo. Onde todos pudessem habitar onde respeito, comunhão, amor reinariam. Seria muito romântico pensar dessa formas? “Juntar juntos” todas as pedrinhas e viver num reino “felizes para sempre”?...e as vaidades, os egocentrismos, os dogmas a vontade de poder...pra onde iriam? E a individualidade? Por que ao longo da história humana elas aparecem como prisma da estrutura mental/social e como talvez geradoras de todas as discrepância a níveis políticos, econômicos, religiosos mas ta,bem como impulsionadoras da mudança, da LUTA por caminhos de justiça . Há que se lutar muito ainda. Eu diria que enquanto houver dogma haverá vontade de poder e haverá Desamor. Mas enquanto houver como diria Lispector “...motivos pra ver, ouvir, tocar o mundo...” acho que muitas, e muitas possibilidades de modificação, transformação, poderão ser capturadas naquela luz ínfima equidistante de um túnel que não tem final :

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  2. Lembrei de um trecho do meu livro de cabeceira "Diário Íntimo", de Sully Prudhomme: "Não há sociedade que se enalteça consigo mesma quando há tantos braços e mãos soltos no tempo, como se as pessoas se esquecessem de se abraçar e pensar que além disto, é raso o conhecimento."

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