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maio 06, 2013

Nostalgia II.

Memórias de infância que guardo, são aquelas que vêm com os sentidos. Catar e comer o licuri em Itacimirim. Eu achava que o licuri vinha das vacas que pastavam ali, (na verdade elas comiam junto com tudo que engoliam, e depois saía, e a gente, os guris, catavam, quebravam a casca dura e comia, parecia leite ninho sólido!). Brincar de explorar as coisas do mato, montar cavalo, galopar, correr neles. Uma aranha “de estimação” embaixo do banquinho verde. A cozinha de minha vó, o cheiro da comida, os temperos, e as histórias, o cafuné. Pescar com meu pai, o cheiro do mar. Som das ondas quebrando. Aprender como pegar siris, sem que prendessem os dedos nas garras. Algas marinhas faziam bem pra pele eu achava, e me cobria delas. Os ovos dos bem-te-vis, eram vigiados ostensivamente pelos micos sagüis. E eles sabiam os horários que um dos pais deixava o ninho, pra poder roubá-los. Mais de uma vez, vi correndo com os ovinhos na boca, e os bem-te-vis enfurecidos, dando bicadas em rasantes de vôo. A guerra das formigas (guerra mesmo, só que sem sangue, mas faltando pouco pra isso) entre clãs, tribos, espécies diferentes. Os filhotinhos cegos e sem pêlo de minha cadela que já morreu. 

Vi uma baleia morta uma vez. Gigante, uma jubarte. E era uma baleia jovem disseram. Não parecia tão majestosa naquela posição com a cara na água, o rabo na areia. Se perdeu? Quis morrer? Se afastou, e veio morrer encalhada na beira mar. Não consegui tocar nela, e ela estava a menos de um metro de mim. Cheiro de uma tonelada de peixe morto, e urubus voando no céu...

Com 17 anos, depois, muito diferente. Sexo sem julgamento, instintivo, imposição hedonista minha, de não julgar e me misturar, conhecer, experienciar tudo no corpo, o corpo vai saber entender, significar, depois eu traduzo os significados. Depois algum vazio e melancolia. Esvaziar, preencher, e novamente. “Se eu tiver que caminhar errante, vou errar pelos meus caminhos, mas pelo menos serão meus” dizia com 16. 

(Orgulho inabalável nessa idade, podia morrer no minuto seguinte e não estava nem aí, criança queria ser imortal, infinita, hoje nem sei...) Hoje me vejo diferente de outras eus. Não que desgoste, mas sinto falta de algo que buscava. Todas as minhas lembranças são, memórias dos sentidos; se lembro de voinha, de meu pai, dele, dela..  é um determinado cheiro, gosto, som, superfície. Esses sentidos, mais as situações, iam dando inteireza, cor, vida, e conhecimento. Hoje, em comparação tudo parece esquálido de cor, insosso de gosto, pobre de poesia, e de conhecimento rasteiro. Não é à toa que os poetas adoram eternizar a infância. Entendo bem o que é isso   




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