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junho 29, 2013

Delicadezas

Eu gosto de coisinhas miúdas.
Essas coisas desimportantes pras pessoas, são as que eu dou todo o valor e minha atenção.
Caminhando eu gosto de olhar em volta, e descobrir teias de aranha, muito bem feitas no tear, um trabalho artesanal a que se inspiraram as mandalas. A casa do João-de-Barro tem nome de gente não por acaso! E ainda acho que os engenheiros e arquitetos deveriam se inspirar nesse vai-e-vem de vôo, numa lenta cadência de construção. Encontrei uma florzinha azul tão pequena, mas tão viva, vibrante de cor, que não passou despercebida. E ali, mais adiante num arbusto, mini tomates selvagens que cresciam quase escondidos, como se não quisessem ser vistos, percebidos, ou não se importassem com essas pequenas delicadezas que vou encontrando, e admirando, miudezas de valor.



Keep the Lights On

De longe, um dos filmes temáticos que mais gostei em muito tempo. Baseado num relacionamento que durou 10 anos, do diretor Ira Sachs. Contado com uma sensibilidade tocante em diversos momentos.

Erik e Paul se conhecem como tantos, por telefone. O primeiro encontro (não vou ser spoiler, e contar o filme aqui, mas fazer minha crítica pessoal), desde esse momento, fica claro quando se sente a mágica entre as pessoas surgir; acontece a química dos corpos, dos olhares: um amor novinho em folha nascendo.

Em momentos difíceis no filme, difíceis de sentir, algumas pequenas identificações, com um ou outro personagem. Cobranças, expectativas com o outro, em que me vi, e vivi em outras relações. E quando a frase "eu te amo" soa com surpresa, uma vez na doçura, outra como hábito, ou como "desculpe-me".

É de uma honestidade desconcertante! Pra mim, aliàs, que tenho as vezes alguns preconceitos aos relacionamentos gays masculinos, e tendo a achar muito volúveis, o filme me presenteou com profundidade inesperada. Ganhou diversos prêmios,  Teddy em Berlim 2012, 16.ª edição do Queer Lisboa, e outros.
Pessoal, intimista no sentido de tornar o expectador íntimo de sua história, participante dela. E sensível, sensibilidade brotando em todos os detalhes, visualmente e sonoramente bem feito, um filme corajoso.


junho 28, 2013

Existe um hino interno
uma canção polifônica
de tons
de zil tons estonteantes
em curvas sonoras
todas elas sussurando
desejos em réquiem
por vir.
Tudo que há pra vir
por saber, acontecer, transparecer
Muitos, muitos ão's de porvir.

Trilhas

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

António Machado - poeta sevilhano

Inverno aquecido


em vinho
dispersando vapores gelados
reservada; indolente e insone...
introspecção nas noites longas.
Uma fogueira, meus poemas
céu pontilhado de estrelas,
neblina e perfume de oleandros.
E aqui, tangerinas





junho 18, 2013

Descoberta Culinária!



Delícia, gostosura, prazeeerrr: descobri o caroço de jaca!
Parece uma castanha do pará, só que com sabor de inhame (docinho mas não muito).
Inventei um tabule de caroço de jaca. Igualzinho a um tabule, mas incrementado com meu gosto: entra coentro, entra gergelim e gersal, azeite de gergelim (amo tudo em relação a este grãozinho), tomate cereja, semente de girassol, e desta vez tirei a semente de abóbora, porque era ruim de mastigar, e grudava muito no dente.
Vou pensar noutros pratos com a iguaria, hehe.
Coisa boa essas experiências na cozinha...

junho 17, 2013

caminhos políticos dissonantes, encontros...

Pawel Kuczynski art
Gosto de estar entre as pessoas. Naquilo que acredito. Gosto de me misturar, de conversar com quem não conheço, de me organizar politicamente e sem partidos. Não sou filiada a nenhum. Meu partido é, sempre foi, e sempre será a esperança. Meu desejo não é o de falar mais alto. Não quero ser porta voz de nada também, ou ninguém. Não tenho o menor jeito pra politicagem. Mas política é ato de pensar e expressar desejos muitos de modificações, eu sei. Disso eu me meto – como posso - em participação, colaboração; é falando algo aqui, discutindo outra coisa lá, com alguém que está equivocado, ou que está com muita, muita raiva de tudo, e está descontando a ira quando todo mundo parece querer vomitar tudo de uma vez. Tenho visto distorções nesses encontros com as pessoas. Algumas acham que anarquia é desrespeitar, vandalizar, pregar liberdades sobre outras. No Ensaio sobre a Lucidez, Saramago firma uma nação sem líder político, sem governantes, a supremacia do pensamento liberal e independente. Idealismo, irrealidade, utopia..? Mas um excelente exercício do pensamento racional e desagregado. E não menos empoderamento pessoal, e coletivo. As classes mais exploradas nunca estão presentes nas manifestações, nas Diretas Já dos anos 80, no Impeachment Collor 94, e na Ditadura anos 60-70. É preciso mais educação pra que eles tenham consciência política. Leitura, consciência histórica... Quando uma lei não serve à população, e ao contrário só a desqualifica, diminui o seu poder, ela deve ser sistematicamente desobedecida. Seria ótimo que as pessoas tivessem essa energia pra fazer ajustes sociais durante todo o ano. Que pudessem ler, ler, LER! Sobre Gandhi, Levi-Strauss, a queda da Bastilha, sobre desobediência civil, Henry D.Thoreau, a história das revoluções...O que for. Como foi que deram certo naquele lugar e época? Sobre a mudança pessoal, as revoluções dentro de si.

Outro dia, conversando com uma amiga, eu insisti em conversar sobre política, o que na maioria das vezes, todo mundo torce a cara. “Porque é chato”. Falei de quanto os evangélicos tem conseguido fazer valer suas vontades políticas, seus projetos de lei, ameaçando áreas que não dominam, como a reorientação sexual pra heteronormatividade, ou pra dificultar antigas práticas do candomblé, e agora, com esse estatuto de aberrações contra a mulher. Seria muito bom que as pessoas que querem mudanças se interessassem por política. E outra, pra haver mudanças é preciso votar em pessoas que tenham o mesmo pensamento liberal que nós. É preciso pensar nos políticos, e nos votos. O voto é exercício de poder, pode não ser o melhor, nem o mais eficaz, mas é instrumento pra isso. Não é feriado pra sair, beber e curtir. Escolhas e reflexão de propostas., pensar em candidatos que tenham relevância de pensamento liberal. Pra descriminalizar a maconha, pra legalizar um casamento homoafetivo, adoções idem, descriminalizar o aborto... Não é isso que dizemos querer? Pra isso acontecer, teríamos que ter representantes liberais no congresso, no legislativo, e em força de números significativos. Senão, vai continuar sendo conversa de mesa de bar, de sindicatos feministas, associações de (não tão) minorias, redes sociais e blogs.

"Se tens um coração de ferro, bom proveito. o meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia".

Insurgência pueril

 too much lov against every hate. (Gosto assim).




The Clandestine Insurgent Rebel Clown Army (or CIRCA).

junho 14, 2013

O Cosmonauta Russo

"Então o Cosmonauta, ele é o primeiro homem a ir ao espaço, certo? Os Russos ganharam dos Americanos. Assim, ele embarca nesta nave espacial grande, mas a única parte habitável é muito pequena. Logo, o cosmonauta está lá dentro e ele tem essa janela, e ele está olhando para fora. E ele vê a curvatura da Terra, pela primeira vez. O primeiro homem a olhar para o planeta de onde veio, e ele se sente perdido nesse momento. E, de repente, um estranho som começa saindo do painel. Assim, ele arranca o painel de controle, tira suas ferramentas, tentando encontrar este som, tentando parar este som. Mas ele não pode encontrá-lo, ele não pode pará-lo. Ele continua e, algumas horas com o som, começa a parecer uma tortura. Alguns dias passam com este som, e ele sabe que este pequeno som vai acabar com ele. Ele vai perder a cabeça. O que ele vai fazer? Ele está no espaço, sozinho, em um closet espacial. Ele tem 25 dias para ir, com este som. Então, o cosmonauta decide que a única maneira de salvar a sua sanidade é se apaixonando por este som. Então, ele fecha os olhos, e ele entra em sua imaginação. E quando ele os abre, ele não ouve mais o som.
Ele ouve música... E ele passa o resto de seu tempo, navegando através do espaço em total felicidade e paz".

(Do filme A Outra Terra)


Estranhezas

Não dá pra entender. E quando tudo parece “bem”, eu sinto essa vontade, esse ímpeto pelo que é torpe, infame, vulgar e criminoso. Irresistível. Momentos em que os olhos percorrem toda realidade, só para ver aquilo que a virtude desvia o olhar. Não é um prazer simples e mórbido, é bem mais fundo. É o que me faz ter simpatia nos pacientes pelos seus queridos vícios, belas fraquezas, doce virulência.

A Mentira pode parecer verdade, se é dita passionalmente, o hálito ébrio e extasiado dos bêbados me comove, e até aquele olhar sem piedade, arrogante, sem desculpas, ou concessões de um criminoso. Um olhar imperioso. Me sinto à vontade nessa nau dos excluídos.

Cheiro de urina e remédios, dedos escurecidos pelo tabaco, o olhar distante, longínquo. Não, aqui você não encontrará nenhum glamour, nem luxo, e só vai ver beleza se seus olhos se acostumarem ao odor antigo e mofado, que paira sobre essas sombras poéticas. A da angústia que me comove, me mobiliza. Se puder ver beleza atrás da palidez, se puder amar a ruína , o porão de desejos nunca realizados, sequer tentados. A solidão de almas. O vazio desértico.

Da demência à angústia, um conjunto de figuras em abismo interno, profundezas que tento entender, ao passo que não deixo de amar.
Eu não desvio o olhar, são todas as expressões de vida, é a própria afirmação da vida que persiste, entre tudo, sobretudo e apesar de. Eu não desvio, eu aguço o olhar, pra ver bem de perto.

junho 12, 2013

beijo com

Fazer Arte
Fazer parte dos detalhes
fazer carinho com as palavras
Com as cores
com o traço.
Fazer arte
Fazer em partes metades,
Arte-se' s
De cor e vida é que são feitas palavras.
em românticos incuráveis, sonhadores-pensadores
é alimento sagrado.









Amor³

.Desired Fruit Tamara.
.
.
.

Amor²



By Milo Manara

Amor¹

'O mais irritante no amor é que é o tipo de crime que exige um cúmplice'. Baudelaire.
                            Se duas pessoas se amam, não pode haver final feliz. Hemingway .
       O homem e a mulher são dois ressentidos contra o ex-amor. Nelson Rodrigues.

                                     Todo amor é eterno, se não é eterno não era amor. (id.)

               Isto é amor? Usar uma pessoa? Então talvez o ódio seja não conseguir usá-la. Gore Vidal.

Ama teu próximo - e se ele for alto, moreno e bonitão, será muito mais fácil. Mae West. 

                       O Melhor do Mau Humor. Uma Antologia de Citações Venenosas: Ruy Castro, Companhia das Letras.
      

junho 11, 2013

Cabaret Drag King*






                                                                                                                            “Menina não senta assim”
“Se comporte, você já é uma mocinha”
“Menina, fecha as pernas”
                                                                                                                                                          (...)

Já ouvi muito. Os primeiros engessamentos de gênero começam cedo.
Quão delicioso é passear entre o masculino e feminino, ser mulher, ser o que quiser.

* Cabaret Drag King, foi uma edição de espetáculo de variedades, que aconteceu em 29 de maio de 2013, no Teatro Vila Velha. O foco das performances foi a "masculinidade". (Obrigada Jacson Costa pela ajuda, sugestão e pesquisa) 




junho 10, 2013

Que mistério tem Clarice,
que mistério tem Clarice...
Pra guardar-se assim tão firme
no coração
(..)
Fez-se modelos das lendas,
das lendas que nos contaram
as avós...


E como eu faço pra pôr numa moldura, num quadro bonito esta música, pra eu olhar e ouvir, sempre que sentir o mistério chegar...






Diálogo mais romântico de todos os tempos

(Quem disse que Clarice não tem humor?)
 

Ele: - pois é.
Ela: -pois é o quê?
Ele: -Eu só disse pois é!
Ela: - Mas “pois é” o quê?
Ele: - Melhor mudar de conversa porque você não me entende.
Ela: - Entender o quê?
Ele: - Santa Virgem, Macabéa vamos mudar de assunto e já!
Ela: - Falar então de quê?
Ele: - Por exemplo, de você.
Ela: - Eu ?!
Ele: - Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.
Ela: - Desculpe mas não acho que sou muito gente.
Ele: - Mas todo mundo é gente, Meu Deus!
Ela: - É que eu não me habituei.
Ele: - Não se habituou com o que?
Ela: - Ah não sei explicar.
Ele: - E então?
Ela: - Então o quê?
Ele: - Olhe, eu vou embora porque você é impossível!
Ela: - É que eu só sei ser impossível, não sei mais nada.
          Que é que eu faço para conseguir ser possível?
Ele: - Pare de falar porque você só diz besteira! Diga o que é do teu agrado.
Ela: - Acho que não sei dizer.
Ela: - Não sabe o quê?
Ela: - Hein?
Ele: - Olhe, até estou suspirando de agonia. Vamos não falar em nada, está bem?
Ela: - Sim está bem, como você quiser.


(O silêncio mais contemplativo do mundo. E eu aqui toda derretida por. Ela ultrapassou o simples da beleza e chegou no irredutível do Amor, O essencial, a única coisa que poderia ser. E tem sua graça...! Ahh...)

junho 09, 2013

Nus de Harry Holland


 As pinturas de Holland tem um senso de imaterialidade e mistério, em locais, situações e relacionamentos oníricos. De tão lindas, quis segui-las, flutuar, voar...
Obrigada Erika Schade, por compartilhar as imagens. Mais sobre as pinturas no site do artista. 

junho 07, 2013

Idolatria: o universo em Hitchcock

"Sempre faça a platéia sofrer o máximo possível."
 
"Loiras são as melhores vítimas. Elas são como a neve virgem em que aparecem as pegadas sangrentas."

Tem poucos diretores que causam tantas reações apaixonadas como Alfred Hitchcock (1899-1980), e eu mesma, que sou fã incontestável do mestre do suspense e já vi tantos filmes dele, que não sei dizer qual gosto mais. (Minto, numa lista de cinco, ponho “Disque M pra matar”, “Um corpo que cai”, “Festim Diabólico”, “Os Pássaros” e “Psicose”, se tiver que escolher).

Falo aqui de duas versões para o mesmo homem. Uma é versão hollywoodiana do diretor Sacha Gervasi,
que pelo menos manteve atores britânicos nos papéis principais, com Anthony Hopkins, Hellen Mirren, e Scarlett Johansson . Outra, de que gostei muito mais, feito pela HBO Films, em associação com a BBC, que se baseia em um livro polêmico, "Spellbound by Beauty: Alfred Hitchcock and His Leading Ladies", de Donald Spoto.

The Girl é uma versão igualmente polêmica, em que se desnuda quem era Hitchcock, o homem por trás das câmeras. Pois é assim pra entender os motivos desse diretor fazer Tippi Hedren filmar 60 vezes uma cena dolorosa em Os Pássaros, ou em Psicose, investigar incesto, repressão sexual, necrofilias, e as partes mais sombrias do comportamento humano com toda a maestria de quem dirige uma orquestra, e sem nunca perder de vista quem é a vítima: o expectador.
Toda a dramaticidade das cenas, da carga emocional, é pra ser filtrada e direcionada pra que o público se identifique com a protagonista (as loiras, sempre as loiras, sua obsessão visível), e sofra juntamente com ela. A intenção é clara, não há dúvida, é traduzir as suas obsessões e fetiches pessoais, em roteiro de cinema, e em filmes grandiosos. Repetidamente ele utiliza recursos visuais e sonoros para arrepiar e causar calafrios no público, creio que ele transpõe a tela e se aproxima do expectador...  Sobre como a escolha de uma música-tema macabra pode arrepiar, e gelar o sangue na fatídica cena do chuveiro; ou como uma tomada feita como ângulo de buraco de fechadura, para que vejamos com os olhos do criminoso. Tudo isso é a genialidade já estampada, conhecida à décadas, e que fizeram a fama de Hitchcock.

O que muda é que temos uma versão mais palatável, abrandada e segura para o grande (e sem conhecimento profundo neste universo específico) público dos cinemas, e uma outra versão que incomoda desde os fãs mais “fanáticos ”, até os novos e recentes admiradores da obra de “Hitch” (apelido dos que o conheciam, e gostavam). Bem, por mais fã que eu seja, não gosto de perder tempo com os floreios e o melodrama do cinema americano, (com raras e boas exceções) que sempre peca por ornamentar desde os dramas mais intimistas, até uma comédia simples.

Hitchcock sempre será lembrado pelo estrondoso sucesso de Psicose, mesmo com todos os riscos e críticas. Porém quem viu e entendeu o que havia dele, de angústia e rejeição feminina, com um casamento que mais parecia uma irmandade colaborativa, e como isso foi transposto e incluído nos roteiros, desde a escolha minuciosa das atrizes, como Tippi Hedren, sua musa e paixão platônica.
No próximo filme de Hitchcock com ela, “Marnie” ele a transforma numa mulher atormentada pelo passado, mentirosa, ladra e... frígida. Ou em Os Pássaros, faz com que trabalhe até a exaustão, repetindo uma única cena inúmeras vezes(63 creio, por 5 dias) e com pássaros reais, com a finalidade de mostrar a raiva que sente pela rejeição feminina. Coincidências demais para ser apenas acaso.

Entender quem era Hitchcock, é o mesmo que entender seus filmes, seus temas, seu gosto pelo mistério, as tramas que passam por intrincado raciocínio, o comportamento criminoso, pelas belas e inacessíveis mulheres que contratava, e que o rejeitavam ostensivamente. O olhar dele sobre o que há de humano é o mesmo olhar clínico que filma atrás das câmeras, o que existe de mais sombrio nas relações, e os vazios que só se preenchem com Arte. Sexualmente frustrado. Deliberadamente sádico. Em uníssono, totalmente genial. Grandiosa e pessoal arte.

Alfred Hitchcock and Tippi Hedren, 'The Birds,' 1963