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junho 14, 2013

Estranhezas

Não dá pra entender. E quando tudo parece “bem”, eu sinto essa vontade, esse ímpeto pelo que é torpe, infame, vulgar e criminoso. Irresistível. Momentos em que os olhos percorrem toda realidade, só para ver aquilo que a virtude desvia o olhar. Não é um prazer simples e mórbido, é bem mais fundo. É o que me faz ter simpatia nos pacientes pelos seus queridos vícios, belas fraquezas, doce virulência.

A Mentira pode parecer verdade, se é dita passionalmente, o hálito ébrio e extasiado dos bêbados me comove, e até aquele olhar sem piedade, arrogante, sem desculpas, ou concessões de um criminoso. Um olhar imperioso. Me sinto à vontade nessa nau dos excluídos.

Cheiro de urina e remédios, dedos escurecidos pelo tabaco, o olhar distante, longínquo. Não, aqui você não encontrará nenhum glamour, nem luxo, e só vai ver beleza se seus olhos se acostumarem ao odor antigo e mofado, que paira sobre essas sombras poéticas. A da angústia que me comove, me mobiliza. Se puder ver beleza atrás da palidez, se puder amar a ruína , o porão de desejos nunca realizados, sequer tentados. A solidão de almas. O vazio desértico.

Da demência à angústia, um conjunto de figuras em abismo interno, profundezas que tento entender, ao passo que não deixo de amar.
Eu não desvio o olhar, são todas as expressões de vida, é a própria afirmação da vida que persiste, entre tudo, sobretudo e apesar de. Eu não desvio, eu aguço o olhar, pra ver bem de perto.

Um comentário:

  1. Acredito que amar o que não é tão belo estranha restrições e aproxima amores vis, como se bastasse nos lavar com um bom sabonete que tudo o que nos parece torpe sumisse, ou aderisse de vez em nós, como parte do que somos, do que fomos, ou do que queremos ser...

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