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junho 07, 2013

Idolatria: o universo em Hitchcock

"Sempre faça a platéia sofrer o máximo possível."
 
"Loiras são as melhores vítimas. Elas são como a neve virgem em que aparecem as pegadas sangrentas."

Tem poucos diretores que causam tantas reações apaixonadas como Alfred Hitchcock (1899-1980), e eu mesma, que sou fã incontestável do mestre do suspense e já vi tantos filmes dele, que não sei dizer qual gosto mais. (Minto, numa lista de cinco, ponho “Disque M pra matar”, “Um corpo que cai”, “Festim Diabólico”, “Os Pássaros” e “Psicose”, se tiver que escolher).

Falo aqui de duas versões para o mesmo homem. Uma é versão hollywoodiana do diretor Sacha Gervasi,
que pelo menos manteve atores britânicos nos papéis principais, com Anthony Hopkins, Hellen Mirren, e Scarlett Johansson . Outra, de que gostei muito mais, feito pela HBO Films, em associação com a BBC, que se baseia em um livro polêmico, "Spellbound by Beauty: Alfred Hitchcock and His Leading Ladies", de Donald Spoto.

The Girl é uma versão igualmente polêmica, em que se desnuda quem era Hitchcock, o homem por trás das câmeras. Pois é assim pra entender os motivos desse diretor fazer Tippi Hedren filmar 60 vezes uma cena dolorosa em Os Pássaros, ou em Psicose, investigar incesto, repressão sexual, necrofilias, e as partes mais sombrias do comportamento humano com toda a maestria de quem dirige uma orquestra, e sem nunca perder de vista quem é a vítima: o expectador.
Toda a dramaticidade das cenas, da carga emocional, é pra ser filtrada e direcionada pra que o público se identifique com a protagonista (as loiras, sempre as loiras, sua obsessão visível), e sofra juntamente com ela. A intenção é clara, não há dúvida, é traduzir as suas obsessões e fetiches pessoais, em roteiro de cinema, e em filmes grandiosos. Repetidamente ele utiliza recursos visuais e sonoros para arrepiar e causar calafrios no público, creio que ele transpõe a tela e se aproxima do expectador...  Sobre como a escolha de uma música-tema macabra pode arrepiar, e gelar o sangue na fatídica cena do chuveiro; ou como uma tomada feita como ângulo de buraco de fechadura, para que vejamos com os olhos do criminoso. Tudo isso é a genialidade já estampada, conhecida à décadas, e que fizeram a fama de Hitchcock.

O que muda é que temos uma versão mais palatável, abrandada e segura para o grande (e sem conhecimento profundo neste universo específico) público dos cinemas, e uma outra versão que incomoda desde os fãs mais “fanáticos ”, até os novos e recentes admiradores da obra de “Hitch” (apelido dos que o conheciam, e gostavam). Bem, por mais fã que eu seja, não gosto de perder tempo com os floreios e o melodrama do cinema americano, (com raras e boas exceções) que sempre peca por ornamentar desde os dramas mais intimistas, até uma comédia simples.

Hitchcock sempre será lembrado pelo estrondoso sucesso de Psicose, mesmo com todos os riscos e críticas. Porém quem viu e entendeu o que havia dele, de angústia e rejeição feminina, com um casamento que mais parecia uma irmandade colaborativa, e como isso foi transposto e incluído nos roteiros, desde a escolha minuciosa das atrizes, como Tippi Hedren, sua musa e paixão platônica.
No próximo filme de Hitchcock com ela, “Marnie” ele a transforma numa mulher atormentada pelo passado, mentirosa, ladra e... frígida. Ou em Os Pássaros, faz com que trabalhe até a exaustão, repetindo uma única cena inúmeras vezes(63 creio, por 5 dias) e com pássaros reais, com a finalidade de mostrar a raiva que sente pela rejeição feminina. Coincidências demais para ser apenas acaso.

Entender quem era Hitchcock, é o mesmo que entender seus filmes, seus temas, seu gosto pelo mistério, as tramas que passam por intrincado raciocínio, o comportamento criminoso, pelas belas e inacessíveis mulheres que contratava, e que o rejeitavam ostensivamente. O olhar dele sobre o que há de humano é o mesmo olhar clínico que filma atrás das câmeras, o que existe de mais sombrio nas relações, e os vazios que só se preenchem com Arte. Sexualmente frustrado. Deliberadamente sádico. Em uníssono, totalmente genial. Grandiosa e pessoal arte.

Alfred Hitchcock and Tippi Hedren, 'The Birds,' 1963


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