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julho 31, 2013

Gothic, lúgubre, nictofilo


Você já parou sozinho, no meio da noite, numa estrada desconhecida,  perguntou e te informaram assim... Fazendo um caminho que nunca ouviu falar, numa noite que nada fazia sentido, e só os sons, baixos, de longe, aqueles que você arrepia. Os grilos silenciam. As corujas fazem reverência. Os morcegos se aquietam. E você até ouve o estalar de um graveto. Logo ali. E paralisa, andando sozinho; nessa noite. Névoa prateada. Lúgubre. Dissonante, reverberante, que ecoa um arrepio, um calafrio... Desintegrada de medo e adoração.
Paralisa, e todos os órgãos em alerta. Você, sozinho, no escuro. Ouvindo. Buscar neste escuro o que é insondável, vertiginoso, desconhecido, este é o próprio Mistério. E o medo é prazer,  em desacordo causa um calor. Embala. Você está seduzido e vulnerável. Entregue. Você ama o desconhecido que encontra. Se aceita um mistério, que te engolfa, num breu cheio de sons.
Todas as vezes que ouço de longe, que pressinto esse curativo, atração irresistível no escuro mais escuro, mais cego, mais Burton. Mais quero. Mais desejo.
Ouvindo Charlotte Sometimes. Bela Lugosi. Undead.  Not dead. De Deus.
Seja a doçura das mãos de tesoura de Edward, seja os poemas de Edgar Allan Poe, que aparecem nos meus sonhos, e eu queria tanto que fossem mais... Seja a figura bizarra de Sandman, Peter Murphy. Tem um desejo meu, que sempre volta. Ansiedade apaziguada quando tenho medo, e desejo. Vejo mais, e melhor.




      

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julho 23, 2013

Só Garotos.

“Tenho certeza de que, enquanto descíamos a grande escadaria, eu parecia ser a mesma de sempre, uma menina embasbacada de doze anos, toda braços e pernas. Mas secretamente eu sabia que havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.”

“Mas uma noite, enquanto assistia à canção de Bernadette, com Jennifer Jones, fiquei pasma ao ver que a jovem santa não pedira para ser escolhida.
Era a madre superiora quem desejava a santidade, apesar de Bernadette, uma menina camponesa humilde, ter sido a escolhida. Isso me deixou preocupada. Perguntei-me se eu realmente tinha vocação de artista. Não me importava a miséria de uma vocação, mas temia não receber o chamado.”
 (...)

“Na guerra entre a magia e a religião, a vitória final teria ficado com a magia? Talvez o sacerdote e o mágico tenham sido um só, mas o sacerdote, aprendido a humildade diante de Deus, tenha trocado o encanto pela oração.”
(...)
Nos períodos em que me sentia por baixo, perguntava-me qual era o sentido em criar arte. Para quem? Estávamos animando Deus? Estávamos falando com nós mesmos? E qual era a meta final? Ter a própria obra engaiolada nos grandes zoológicos da arte – o Modern, o Met*, o Louvre?

"Eu ansiava por honestidade, mas encontrava desonestidade em mim mesma. Por que se comprometer com a arte? Pela autorealização ou pela arte em si mesma? Parecia um capricho somar-se à massa de excessos, a não ser que isso oferecesse iluminação".


Met* Metropolitan Museum.
Só Garotos / Smith Patti; São Paulo, Companhia das Letras, 2010. Págs 20, 63 e 64.














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julho 22, 2013

Aquarela

Foto e montagem de Lycia Scharmer.

Andei, andei
até que os contornos
de mim mesma
se misturaram
dentro e fora
em aquarela.














noite alta lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa

(leminski de ninar)

Chuvas

A chuva de dentro, com a lágrima de fora. Chuva lá fora, e a lágrima presa aqui dentro... Quem vê o de fora, não sabe a tempestade de dentro.
A lágrima é a expressão que o corpo diz... precisa chover aí fora pra estancar a dor de dentro, senão inunda, enxurrada.
Lágrima, na transparência tudo se vê.

julho 21, 2013

Jams

Demorei até, pra começar a escrever, e pensar a dança com o corpo. A gente usa demais a mente e esquece de outras formas de inteligência, e de outras compreensões e apreensões dos outros.
Voltei a dançar, um pouco timidamente no início, depois, percebo-me com prazer, investindo meu corpo em movimentos novos, arriscados. Dançamos primeiro sozinhos, ouvindo o que cada parte do corpo pode, ou sabe fazer, como explora o chão, e o ar, e o quanto nós gostamos de desenvolver, estender esse movimento. Por aí, eu sinto onde está a minha tensão, o tornozelo vai e gira bem, mas não aguenta o que o cérebro comanda; agilidade, destreza, e vaidade. Paro. E respiro, não vou brigar comigo.

Entendo que ganharei mais se tratar com carinho e menos rigor; é uma busca, disciplinar o corpo para aquilo que inconscientemente ele está preparado, mas não sabe que sabe. Até que você se arrisca. E vai! Aí se empolga demais e trava de novo. Nova escuta e compreensão. Começamos devagar, acordando aos poucos cada parte adormecida.

Só movimentos com as mãos no chão, sem tirar, tudo, mas as mãos no chão, uma regra pra explorar e depois brincar. Depois os pés, só eles. Ou a cabeça. E por fim, todas as três extremidades em contato carinhoso com o que nos sustenta.
Me vejo avançando devagar em todas as direções, a busca, a procura, por explorar e conhecer as possibilidades e extensões que cada parte em si quer, deseja ir, e como o todo se adequa. Adequação e equilíbrio. E curiosidade. Meu prazer em cada ponta e extensão de mim, numa coordenação interna, externa e principalmente entrecampos, a pele. O contato que entende e decide em conjunto.
Esse é um momento, aliás, uns momentos. Em seguida passamos pra tentar rolar o corpo, primeiro livremente e com delicadeza, Treinar ir com a mão e o braço primeiro, ou o pé e a perna. E a delícia suprema que é descobrir com o outro corpo, outra pessoa, com irmos juntos. Como se escolhe esse alguém? Como se é escolhido?
No consciente eu sei que vou na direção de alguém mais leve. Mas me dando conta disso, arisco tentar o peso e alguém diferente de mim.

Sempre começo um pouco devagar, pra ir conhecendo como a pessoa se move, pra ir avançando à medida que sinto segurança e sintonia, afinidade de movimentos e decisões compartilhadas.

Tento pensar como eu duplo, uma duplicidade diversa de mim mesma, mas extencionada. Quero o raciocínio do tato em duplos compreendidos. É o exercício da paciência, e da escuta do que queremos. O que eu quero, o que ela(e) quer. O que faremos juntos com esse querer.
A mediação do querer e decidir sem palavras, com gestos. Acho importante ter claro que somos pessoas desejantes, que tomamos decisões todo o tempo, e assim também é na dança, no contato improvisação. Sem a voz, a fala, mas a clareza da intencionalidade.
E não competir pela escolha ou decisão, “Vou mais rápido?” “Espero pelo outro?” Eu dou mais peso do que poderia dar? Ou menos, pra preservar a mim ou à ela(e)? Estou respeitando meu corpo, minhas medidas, meus avanços e limites..?
Se estou desmotivada, desenergizada, ou o contrário, acelerada demais, a dança desafina.

Eu paro. Se no inverso, ela (e) está em desacordo, estamos descompassadas, eu sinalizo também. Parada pra demonstrar a intenção. Parando ou indo mais lenta, se houver uma boa escuta, é compreendido e retomamos pra tentar a mudança. Se não, se não houver fineza na escutatória, vou cada vez mais lenta, ou mais rápida, a depender, e me individualizando numa dupla, o que não gosto nem quero. Faço tentativas e se não consigo em conjunto, mudo de parceria, de dupla.

As vezes não é tão claro qual, quem, está desafinando, porque há algumas regras, mas há uma fluidez e plasticidade que definem o C.I.
E diferente das aulas, na Jam, tudo é mais ágil, no sentido das trocas de pares, de decisões corporais, da sutileza do tentar e assegurar a decisão. E não tomar pra si todas as decisões, de se permitir ser levada às vezes, de se doar.
A liberdade do toque dá lugar á divisão de papéis, do dar força, equilíbrio e segurança, facilitar a leveza ou o peso, e o brincar sério de criar. 


julho 18, 2013

Índigo azul anil

Xique Xique de Igatu, Chapada Diamantina, casa de Kanaú. Foto de Esperança Gadêlha.
Alcançar um ínfimo
um átomo
um átimo de algo,
e se desiludisse e anulassem todas as vontades...
todas as verdades, todas as vaidades
E sem elas, sem nada, ser nada
sem quase nem pele de existir
existisse numa icógnita
numa hipótese
cápsula.
Proteção; o que me consome é divinado.
E ir tão fundo, mas tão fundo, tão atropeladamente dentro
dentro daquilo que não sei,
e deixar o mistério em mim,
que não descubro, nem desconfio
me alcançar e me tomar...
Que serei eu?
Quem serei eu
Só o bem querer me doará
me torna.















julho 16, 2013

Paz

paz é uma palavra prece
de escrever sem pressa
e nunca presa,
preciosa
.paz.

Existem !!!


1.Os dragões de Khalessi 2. Rara mariposa ¨poodle¨ da Venezuela 3. porco-espinho recém nascido
4. Traça Imperial de Frutas (Phyllodes imperialis), encontrada na Oceânia 
5.Inseto Achriopitera fallax stick de Madagascar 5. Gado Highland da Escócia  
6. Peixe-morcego de lábios vermelhos (Red-Lipped batfish) 7.Brookesia Micra 
(menor camaleão do mundo) 8. bebês camaleões. 



julho 13, 2013

Instantes


























- Mas você vai pro mato de novo?!
- Vou.
- E o que você faz lá que gosta tanto?
- Nada. E isso significa tudo.


Pra reafirmar as paixões, dúvidas. Ser instantes.
 Ou simplesmente me sentir em casa.

julho 08, 2013

Baal, Rimbaud e meus 19*

Do espetáculo Baal, de Harildo Déda, que vi em 29 de março de 1999, quando fiz 19*. E fui ao teatro sozinha, ver e ouvir Rimbaud, The Doors e Brecht. Pra abrir portas de liberdade, política, anarquia. Era opressão pessoal, e dissolução de qualquer esperança na humanidade. E retirar de mim qualquer resquício de amor.
Uma balada de vida e morte, sexo, revolta e solidão. Um réquiem pra todos os desejos abjetos, que não tem lugar. O lugar do Dissoluto. Louco,  Livre.
Cada expressão de loucura é bem vinda. E a fúria com tintas vermelhas-sangue, jogadas, despejadas, espalhadas sobre o branco de uma paz inexistente.
Sobrepor e tornar a sombra em seu oposto; coroada. O embate de opostos até cair a exaustão das cores. E exaurir os desejos, até que não reste nada, em tudo que pode ser subjugado.  
Baal marcou tanto, que 14 anos depois, ainda tenho lembranças. As coisas mudaram. Ou mudei eu. Mas sei que algo daquilo tudo ficou.



***
Outrora se bem me lembro, minha vida 
era um festim - aberto a todos os
corações, regado por todos os vinhos.
Um dia, sentei a Beleza no meu colo.
-Achei-a amarga - E injuriei-a.
(...)
Cheguei a dissipar do meu espírito
 último traço de esperança humana.
Num salto de animal feroz,
pulei sobre cada alegria para estrangulá-la.
(...)
Fiz da desgraça um deus.
E me espojei na lama. 
E me estendi a secar na aura do crime. 
E andei pregando peças à loucura.
A primavera trouxe a mim o riso horrível do idiota.
Arthur Rimbaud
Une saison en Enfer

Pra lá do Mundo

Filme sobre a vila, a natureza no Vale do Capão, Bahia. Pelos seus moradores, os antigos e nativos, os novos, os estrangeiros que abraçaram o lugar, imigrantes de diversas nacionalidades, mudaram-se pra fugir da sociedade de consumo.
Os nativos se beneficiaram com a chegada da luz em 1992, a energia elétrica, o asfaltamento das estradas, e à abertura ao comércio mais amplo, o ecoturismo.
Mas, o crescimento desordenado para um pequeno vilarejo, e com isso: a produção do lixo de igual ou maior proporção. O problema está nos excessos em ambos os lados.
 Os incêndios, crimes de muitas razões políticas. Música, costumes, e as tribos reunidas.


Lugar mágico, Vale do encantado que adoro, e me preocupa de não ver preservado.

julho 04, 2013

As Horas

Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora; e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro. Virginia Woolf


 "Everything is gone from me, but the certainty of your goodness." - Virginia

Estamira: a mulher que criou Deus

 (...e reinventou os homens em formato par/ ímpar)

Lucidez delirante, sabedoria sem fim. A mulher que os psicanalistas amam citar, os cineastas, poetas, artistas, psicólogos e uma renca atrás de Estamira. Me pergunto se ela ainda está no lixão de Gramacho...

Mais ou menos Deleuze, e mais deleite.

“Eu sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. A minha missão, além de eu ser Estamira, é revelar a verdade... Capturar a mentira e jogar na cara. Ensinar a eles o que eles não sabem.” 

"Tem o controle remoto superior natural, e tem o controle remoto artificial. O controle remoto é uma força quase igual assim, mais ou menos igual à luz, à força elétrica, a eletricidade, sabe. Agora, é o seguinte, no homem, na carne e no sangue tem os nervos. Os nervos da carne sanguínea vem a ser os fios elétricos". 

“Não tem mais inocente... Tem esperto ao contrário.”

“O espaço inteiro é abstrato. O que se vê lá em cima é só reflexo do que está aqui embaixo.”

“Que Deus é esse? Não é ele que é o próprio ‘trocadilo’? Ele e sua quadrilha...”

  
“Eu sou ‘formato homem par’, que são as ‘mãe’

“A Terra falava, agora ela tá morta. A morte é dona de tudo”

“ Todos os homens têm que ser iguais, tem que ser comunistas... tem que ter ‘igualidade’.”

“Tudo o que é imaginário,
existe, tem, é.”

"Sou louca, sou doida, sou maluca, sou azougada. Sou essas quatro coisas. Porém, lúcido e ciente sentimentalmente"

"Vocês não aprendem na escola. Vocês copiam. Vocês aprendem é com as ocorrências. Eu tenho neto de 2 anos que já sabe disso. Tenho de 2 anos, que ainda não foi à escola copiar hipocrisias e mentirar charlatais" 

"Os home tão pior que um quadrúpulus! É a decepção de todos os espaço. É a decepção de quem revelou o homem como único condicional"

 "Foi combinado alimentai-vos o corpo com o suor do próprio rosto, não foi com sacrifício. Sacrifício é uma coisa, agora, trabalhar é outra coisa. Absoluto. Absoluto. Eu, Estamira, que vos digo ao mundo inteiro, a todos, trabalhar, não sacrificar."  


“Tempo eterno é tempo infinito, mas tem o além e o além do além. Nenhum cientista foi até o além, quanto menos no além do além. Para mim, tudo o que nasce é nativo, isto é, natal”.

"Me trata com teu trato, que eu te devolvo o teu trato!"

"Eu sou a beira do mundo"

"19-3 pois! 19-3 pois! Câmbio, Exu" 




julho 03, 2013

Já ouviu falar?

Ato Médico. Uma luta entre os profissionais de saúde e os médicos. É assim que a população sabe sobre o assunto.
E o assunto precisa urgentemente transbordar porque vai afetar o atendimento de todo mundo na saúde. São 13 categorias de saúde* contra a soberba médica, que invade outras áreas de conhecimento que não são de seu domínio, nem prática. Acupuntura que é uma prática milenar só pode ser prescrita após o atendimento por um médico, o parto normal e humanizado, só por autorização médica. O conceito de equipes multiprofissionais, que existe como ganho e valorização dos diversos profissionais que cuidam da saúde estão perdendo espaço pra uma reserva de mercado, e uma ridícula e imprópria atuação do Conselho Federal de Medicina, contra a lógica e o bom senso, onde cada um tem seu direito de atuação pela melhoria da saúde dos pacientes.
As questões de “invasão cirúrgica da derme, epiderme, e etc..” tem fundamento em quem é que vai operar, e profissionais de Optometria e Cirurgia Odontológica tem seus motivos aí. Os profissionais de Psicologia, vão ter restritos sua avaliação diagnóstica de doenças que são de seu campo de trabalho como depressão, esquizofrenia, e outros transtornos mentais.
O Conselho Federal de Enfermagem explica que enfermeiros e fisioterapeutas ficam proibidos de fazer diagnósticos e prescrever tratamentos e acusa a lei de colidir com as portarias do Ministério da Saúde, que prevêem a realização de consultas pela categoria para a identificação de doenças como hanseníase, tuberculose, hipertensão e diabetes.
E cada uma das categorias de saúde, cada uma com suas especificidades tem proferido, alertado, reclamado à seu modo, sobre a invasão e pretensão de superioridade dos profissionais de medicina sobre outros profissionais de saúde; esquecendo-se que a terminologia “Equipe multidisciplinar” não é um conceito apenas ético, como uma determinação da Organização Mundial de Saúde, e das diretrizes do SUS, como também do Ministério de Saúde, onde mais profissionais deveriam estar se posicionando contra.

O projeto tem 11 anos que vota e arquiva, torna a votar, e agora aprovado pelo Senado, aguarda que a Presidenta Dilma sancione pra entrar em vigor.
Dia 11/06, último dia antes dessa aprovação, nova manifestação em Salvador sobre o Ato Médico, juntamente com outras capitais do Brasil, esperando que a população também participe do que diz respeito à saúde dela mesma.

*Categorias de saúde prejudicadas pelo PL Ato Médico(além da população):
Psicologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Enfermagem, Serviço Social, Nutrição, Biomedicina, Radiologia, Educação Física, Sociedade Brasileira de Optica e Optometria.

Sites:


02 DE JULHO

Independência da Bahia e de todas as profissões de saúde.



(Tem umas figuras que vale fotografar né...)