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julho 23, 2013

Só Garotos.

“Tenho certeza de que, enquanto descíamos a grande escadaria, eu parecia ser a mesma de sempre, uma menina embasbacada de doze anos, toda braços e pernas. Mas secretamente eu sabia que havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.”

“Mas uma noite, enquanto assistia à canção de Bernadette, com Jennifer Jones, fiquei pasma ao ver que a jovem santa não pedira para ser escolhida.
Era a madre superiora quem desejava a santidade, apesar de Bernadette, uma menina camponesa humilde, ter sido a escolhida. Isso me deixou preocupada. Perguntei-me se eu realmente tinha vocação de artista. Não me importava a miséria de uma vocação, mas temia não receber o chamado.”
 (...)

“Na guerra entre a magia e a religião, a vitória final teria ficado com a magia? Talvez o sacerdote e o mágico tenham sido um só, mas o sacerdote, aprendido a humildade diante de Deus, tenha trocado o encanto pela oração.”
(...)
Nos períodos em que me sentia por baixo, perguntava-me qual era o sentido em criar arte. Para quem? Estávamos animando Deus? Estávamos falando com nós mesmos? E qual era a meta final? Ter a própria obra engaiolada nos grandes zoológicos da arte – o Modern, o Met*, o Louvre?

"Eu ansiava por honestidade, mas encontrava desonestidade em mim mesma. Por que se comprometer com a arte? Pela autorealização ou pela arte em si mesma? Parecia um capricho somar-se à massa de excessos, a não ser que isso oferecesse iluminação".


Met* Metropolitan Museum.
Só Garotos / Smith Patti; São Paulo, Companhia das Letras, 2010. Págs 20, 63 e 64.














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