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agosto 21, 2013

Somos todos filhos de Artaud.

Alguns de Rimbaud. De Arthur Bispo do Rosário, de Estamira, de tantos outros à margem, à beira do mundo, e beirando uma criatividade alucinada, da lucidez mais delirante.

Fico pensando no que acontece com estas figuras, ora personas non gratas na sociedade, ora são os que espelham essa brutalidade, sem preservar a própria pele.
Estamira morreu aos 70 anos, em 2011. Alguma vez saiu do lixão de Gramacho? Sua vida, sua loucura irreverente, por vezes cômica e genial, lhe rendeu alguma mudança, melhoria de condições, de tratamento..? Temo que não.
Antonin Artaud foi poeta, ator, dramaturgo. Depois internado num manicômio, e deixado por lá. A institucionalização da loucura.
Na época, local para se alocar e estudar estes casos extremos em que o ser humano luta consigo mesmo.
Ou mais provavelmente, luta com as leis morais, as instituições sociais, as regras banais, ordens absurdas e convenientes. Rupturas.
Me esforço por entender o que acontece em relação à mim mesma: como se enclausurar tão fundo dentro de si? Não é pagar um preço caro demais... ou estamos falando em liberdade, em verdade.
É o divórcio da sociedade que poderia nos fazer livres? Será preciso infringir algumas leis que nos ferem profundamente, maltratam internamente nossa natureza, pra nos tornamos nós mesmos. Se com o divórcio da humanidade, pudéssemos enfim respirar, mais humanos.
Penso em mim mesma.
E se a sociedade antes não o reconhecia como artista, com brilho promissor, depois do divórcio com a sociedade, depois do egocídio, ainda haverá luta consigo, talvez.

E se não houve reconhecimento antes, se não houve empatia, alteridade; então porque diabos haveria de ele ou ela desculpar-se à sociedade de ser quem é, ou de tornar-se agradável, socialmente adequado, mentalmente equilibrado? ¨Pra que se ajustar a um mundo doente¨, como já se perguntava Krishnamurti.
Respondo sem pensar, pra mim mesma; pra modificar, fazer algo, mesmo que momentaneamente sejam essas poucas linhas, pra em seguida ser movimento em ação, prática antimanicomial. Essa minha resposta impulsiva e romântica é também minha tentativa mais honesta de dizer, eu me sinto filha de Artaud, de Estamira. E também não sei responder pra mim mesma sem parecer ingênua, agressiva, passional demais, feroz...

Como disse alguém da platéia, “Estamira me lembra Clarice”.    Eu concordo.
Mais, sei que Clarice se sentiria profundamente honrada, lisonjeada. São da mesma espécie metafísica. Sozinha, na minha loucura sadia que me protege da banalidade mental que vivemos.Esse limite que divide a linha tênue de minha sanidade frágil da loucura sólida, concreta é o meu caminhar trôpego, minha dança ébria. 

  • Cartografia do Abismo, Direção de Luis Alonso, com Caio Rodrigo. 
  • Estamira, com Dani Barros, direção de Beatriz Sayad.

(Um acidente deliciosamente ridículo, antecede minha entrada ao teatro; andando pelo centro da cidade, eu reclamando da quantidade de lixo que produzimos e espalhamos nas ruas "A cidade está imunda! Olha quanto lixo..em toda parte. Que porcaria, vê essa calçada...!" Aí pronto: entro com os dois pés e sandália no esgoto. Da raiva inicial eu dou uma gargalhada homérica, Estamira devia estar ali rindo comigo).

    Um comentário:

    1. 'Sol, li o texto que vc escreveu e fiquei realmente muito tocada... Obrigada pelas suas palvras tão lucidas e sensíveis...'
      Bjao,
      Mari

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