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novembro 25, 2013

correnteza

Sentei na terra, e deixei meu sangue escorrer pra onde devia.  Lentamente.
De olhos fechados, desejava que meus líquidos retornassem à Grande Mãe, e à ela se juntassem.
Algum tempo depois, levantei, e olhei pra o púbis todo em vermelho vivo, e as coxas como em desenho de veias abertas, em estradas sinuosas, na pele, em direção à Terra.
Observava estranhas lágrimas de sangue. Vejo como uma paisagem bonita, mesmo que a cor cause alerta.
O sangue sempre despertou medo e recuo nas pessoas. (Me diziam que era sujo e cheirava mal, mas meu sangue é limpo, e só tem cheiro de sangue - pretendo começar sem saber então).
 Mas nos animais não. Eles não tem medo, e ficam agitados. (Excitados?) Eles farejam o cio das fêmeas?
Mas o cio da fêmea mulher vem antes...
Os animais pressentem meu estado em ciclos. Estágios que outras fêmeas dominam. E outros machos ficam curiosos, entreolhando.

Acaricio meu ventre. Está um pouco inchado aqui, e ali. Uma pontada de dor, leve, lembrando que a vida não veio dentro de mim. E eu devolvo esse pedaço meu que verte em fluxo abundante.
O que não vingou é sangue, e deve tingir à terra, em cores, e suas profundezas.
Misturo nossos interiores; um único ventre.

Tenho a sensação de que já fiz isso antes, alguma vez. E que esse reencontro é gratidão e deliciosa entrega.

(Caminho para o mar, e de novo o mergulho. No mar, o sangue não desce mais, ele estanca. Fico deitada, nua, flutuando. Olho pra cima, o céu sem nuvens). 

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