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dezembro 09, 2013

Além do Heroísmo: a Dança

¨O último arquétipo descrito neste livro é o Bobo, o qual está incluído entre os arquétipos de retorno, porque governa a expressão dos nosso Selves no mundo.
Todavia, o Bobo nunca se encaixa perfeitamente em nenhuma classificação. Nós encontramos o Bobo no início e no final de nossas jornadas; durante a jornada, porém, nós apenas vislumbramos o Bobo na orla - geralmente não permitimos uma forte influência sua na consciência. O Governante simboliza a conquista  da consciência e do verdadeiro Self; o Bobo, entretanto, nos ajuda a transcender a nós mesmos, ao heroísmo, à individuação, e à consciência, atingindo o êxtase. 
Em seus níveis mais básicos, o Bobo está sintonizado com a parte mais primitiva da psique. Ele está relacionado com o mais profundo repositório de nossos impulsos e anseios instintivos, desejos que talvez não estejamos dispostos a reconhecer diante de nós mesmos e dos outros. Em termos freudianos, ele está estreitamente relacionado com o Id e com os impulsos e instintos básicos da espécie. 
Mesmo em culturas  muitas vezes consideradas relativamente primitivas, a figura do trapaceiro, que ilustra essa maneira de agir, geralmente já está fora da lista dos papéis socialmente aceitáveis. Entretanto, como temos visto, reconhece-se que elas contribuem para nosso prazer de viver.

"Não temos teologia. Nós dançamos. " (Monge japonês falando a Joseph Campbell.)

Podemos aprender coisas a respeito do crescimento e do desenvolvimento do Trapaceiro de nós mesmos, observando os mitos e lendas. Jung considerava que o Trapaceiro aparecia em "conversas picarescas, folias e festejos, em rituais mágicos e sagrados, nos temores e na exaltação religiosa dos homens", e na
"mitologia de todas as épocas". Deste ponto de vista, o Trapaceiro presente nesses mitos é "uma estrutura psíquica arquetípica extremamente antiga que, nas suas manifestações mais claras, é uma cópia fiel de uma consciência humana absolutamente indiferenciada, correspondendo à psique que mal ultrapassou o nível animal.¹¨
²Em The Trickster, Radin resume desta forma as principais características do mito: "A esmagadora maioria dos assim chamados mitos do trapaceiro na América do Norte, falam sobre a criação da Terra, ou pelo menos, sobre a transformação do mundo, e tem um herói que está sempre andando ao léu, sempre com fome, que não se orienta pelos conceitos normais de bem ou mal, que vive pregando peças nas pessoas, ou sendo vítima dessas peças, e é dotado de grande apetite sexual. Em quase todos os lugares ele tem algumas características divinas". 


                                                                       ¹Pearson, Carol S. O despertar do Herói Interior. Ed Pensamento, 1991, São Paulo.
²On the Psychology of the Trickster Figure", de C. G. Jung em The Trickter: A Study in American Indian Mythology, de Paul Radin (Nova York: Shocken,1987),200.

 E se essa é minha jornada, ou seja, minha própria vida, e em certo nível  sou eu quem a governa  e conduz: porque não fazê-la gingando
Meu Bobo, me desafia a fazê-lo com sabedoria espirituosa.

2 comentários:

  1. Olá, Soraia.
    Muito bom o texto. O Bobo é o trunfo mais poderoso do Tarô porque ele define a consciência divina no ser humano. Como você citou, ele está no início, durante e no fim da jornada. Nós ainda apenas o vislumbramos porque estamos muito identificados com o ego. O Bobo está muito além dos limites estreitos do ego, ele respira o ar puro das pradarias cósmicas e selvagens. Ele é amoral, está além do bem e do mal e do masculino e feminino. Para o mundo ele pode ser ingênuo, pois entre o ter e o ser ele escolherá sempre o ser. Ele é o arcano 0, o nada que é tudo; ele está presente em todos os arcanos do tarô, que são apenas personagens que ele usa para se manifestar, jogar e brincar na sociedade. Em outras palavras, ele é o Ator por trás dos papéis dos personagens dos demais arcanos. Trapaceiro? Hummm....não vejo assim. Aliás, o trapaceiro é associado mais ao Mago, arcano 1, que é o que me parece a carta que você colocou como ilustração do texto. Não conhecia esta figura, mas acho que está mais ligada ao Mago, que faz malabarismos e manipula a realidade tanto para o bem quanto para o mal. O Bobo ou O Louco não é trapaceiro, ele é a própria inocência que é ingênua no início da jornada mas que é plena de sabedoria no seu final. Valeu, amiga, espero ter ajudado. Beijo.

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    1. Poxa, super obrigada! Adorei sua explicação do tarot... Estou seguindo pela leitura daquele livro ali "O Despertar do Herói Interior" de Carol S. Pearson, uma psicóloga junguiana, mas não há indicações ou interpretações das cartas. Sua explicação foi bem ampla.. O Bobo parece ter muitos desdobramentos, como o coringa, o bobo na infância - o inocente, o Louco(talvez esse seja o trickster?)o Bobo sábio, ou bufão no fim da vida(jornada)... Tem uma variedade de personas. Valeu ! :)

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