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abril 29, 2014

"Perceber as minúcias e engrenagens do mundo, o ínfimo e as dobras nas histórias, a sutileza da vida, as camadas da existência e poetizá-las recontando aos demais. Ceder os olhos e ouvidos ao corpo social. Essa é a função sagrada do artista. E, como presente para si, descobre as particularidades e, consequentemente, a própria vida".

"Submergi as mãos na proximidade da nascente, que a essa altura já inundava o entorno, e (em sonho) rindo, pensei: eu também sou água".

Ambas da poetisa Lycia Scharmer. Tento perceber em conjunto, forma, cor, desenho de dentro.

Cachoeira da Rosinha (transbordante) em Igatu, e Tamara compondo a foto.



abril 25, 2014

Arranjo interior

"Poesia são uma ou duas linhas e atrás uma imensa paisagem."

Atrás, das formas e das cores, e daquilo que ainda não deram nomes.


abril 22, 2014

Em casa, em toda parte.

¨Não permitas tristeza
entrar por estas portas,
Não permitas problemas 
virem por estas janelas, 
não permitas conflitos
neste lugar de benção, alegria e paz¨
Dóris Dalibor Neves - Dez 2011

Full of stars


Sinergia e sincronicidade, a natureza fractal




“Não posso provar a você que Deus existe, mas meu trabalho provou empiricamente 
que o "padrão de Deus" existe em cada homem,
e que esse padrão (pattern) é a maior energia
transformadora de que a vida é capaz de dispor ao indivíduo.
 Encontre esse padrão em você mesmo e a vida será transformada"


Jung e a Sincronicidade
"Nós, seres humanos - ensina ele - temos um papel especial a desempenhar no universo.
O nosso inconsciente é capaz de refletir o Cosmos e de introduzi-lo no espelho da consciência. Cada pessoa pode testemunhar o Criador e as obras Criativas desde dentro, prestando atenção à imagem e à sincronicidade. Pois o árquétipo não é só o modelo da psique, mas também reflete a real estrutura básica do universo. "Como em cima, assim em baixo" falou o mestre Hermes Trimegisto. 
"Como dentro, assim fora" responde o moderno explorador da alma, Carl Gustav Jung. 

(Extraído e adaptado do livro Jung, o mapa da alma, de Murray Stein. 

Medologia cúmplice

"Eu faço as minhas coisas e você faz as suas.
Eu não estou neste mundo para satisfazer as suas expectativas.
E você não está neste mundo pra satisfazer as minhas.
Você é você, e eu sou eu.
E, se se por acaso nós nos encontrarmos, será ótimo.
Se não, nada se pode fazer"
                                                   F. Pearls (Fundador da Gestalt Terapia)
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Eu respondo a minhas contingências, e você responde a suas.
Eu não estou neste mundo para viver as tuas regras e auto-regras.
E você não esta neste mundo para para viver as minhas.
E, se por acaso, nós eliciarmos respondentes emocionais reforçadores, será ótimo.
Se não, extinção.
                     Autor: Denilson Paixão (referente ao Behaviorismo Radical)
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                                                         Agimos pelo princípio de individuação , e se você está energeticamente em polaridade oposta, então essa energia entrópica se deslocará em oposição, e assim distribuímos nossas diferenças, criando um amplo campo gerador de energias!
Você é seu self , eu sou meu próprio self.
E se por sincronia psíquica nos equilibrarmos sinergicamente, nosso inconsciente pessoal se fundirá com o coletivo, e portanto, nossos selves não precisarão de personas ou máscaras sociais.
Se não, arquétipo sombra.   
(eu mesma, em acesso lúdico-sinérgico)  
       (Pra Tamara, que me faz ver tudo em sentido junguiano,  -ou seja - nada se perde, tudo se transforma           em energia psíquica harmônica! Ahhh! )                                                                

Cultura e restrição

" A natureza das culturas e dos complexos negativos consiste em se abater sobre qualquer discrepância entre o consenso sobre o que é o comportamento aceitável e o impulso divergente do indivíduo.
(...)
Se recuarmos diante do coletivo, cedendo às pressões no sentido de um conformismo irracional, estaremos protegidas do isolamento, mas, ao mesmo, tempo, estaremos também traindo nossas vidas selvagens e as colocando em risco. 
Há quem pense que já se foi o tempo em que chamar uma mulher de selvagem equivalia a xingá-la. Se ela for rebelde, ou seja, se agiu de acordo com a natureza de seu self profundo,  ela foi classificada como de "errada" ou "má". O que mudou foram os tipos de comportamentos que considerados "descontrolados" no caso das mulheres. Em diversas partes do  mundo hoje em dia, se uma mulher toma uma posição política, social, ou ambientalista, é muito frequente que suas motivações sejam examinadas para detectar se ela "perdeu o controle", ou seja, se enlouqueceu. (...)
Ás vezes a única saída alternativa a adotar diante de uma coletividade ressequida consiste em perpetrar um ato impregnado de coragem. Esse ato não tem necessariamente de provocar um terremoto. A coragem significa seguir o coração. Há milhões de mulheres que realizam atos de enorme coragem todos os dias.
Não é só o ato singular que reformula uma coletividade encarquilhada, mas também a continuidade desses atos. 

Uma psicologia abrangente deve incluir não só o corpo, a mente, e o espírito, mas também, e de modo idêntico, a cultura e o ambiente."

Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os Lobos - Cap 8. A preservação do Self .

Apenas pra ficar na mesma autora, ao tratar da cultura e do ambiente na construção da identidade espiritual e seu desenvolvimento, outros autores tratam do mesmo tema, em B.F.Skinner, Piaget, Marlow, Freud ( no ótimo O Mal Estar na Civilização), Adler, etc...

Hambre del alma - fome da alma

À luz da psicologia, Jung propôs que os instintos seriam derivados do inconsciente psicóide, aquela camada da psique na qual a biologia e o espírito talvez se encontrem.

A analista junguiana Clarissa Pinkola Estés¹, além de concordar, arrisca propor que se o instinto criador, em especial, tanto é a expressão lírica do Self, quanto a simbologia dos sonhos.
Etimologicamente, a palavra instinto deriva do latim instinguere, que significa incitar ou induzir uma inspiração inata, bem como de instinctus, que significa "impulso". A idéia do instinto pode ser valorizada como alguma coisa interna que quando mesclada com a previsão e a consciência, orienta os seres humanos em um comportamento integral.

"Chamem do que quiserem - a união com o lado selvagem,  esperança no futuro, uma corrente de energia, a paixão pela criação, um jeito de ser, de fazer, o ser amado, o noivo selvagem, a ¨pluma pousada no sopro de Deus¨".

Minha fome tem a ver com justiça social. Desde muito pequena, eu ficava triste, enfurecida, ou em acessos de retraimento e silêncio, quando via formas de injustiça, animais serem machucados, abandonados, ou negligenciados. O mesmo acontecia com crianças que tinham muito pouco, daquilo que achava que deviam ter, atenção, carinho dos adultos, mais paciência e amor.
Com idosos, quando vejo que os mais novos perdem o tato, bom senso, a paciência, quando precisam executar uma tarefa, o fazem de mal jeito, à contragosto, apressadamente, ou automatizado; como se tratasse de um objeto, um objeto sem valor.
Ou infantilizando-os, inferiores, dementes, incapazes.
Infantilizam crianças, idosos e adultos, de todas as idades, tamanho, origem, razão social e econômica.
E eu nestas circunstâncias sinto o peito apertar, sufocamento, - é o que a sensação de injustiça me causa.
É minha fome da alma, urgindo, uma vertigem por  todo o corpo, uma mobilização forte me impelindo a agir, proteger.
Já viu um animal engaiolado?  Seja que animal for, primata, felino, pássaro... O olhar que eles tem, me atravessa a alma, está ali transbordando um pedido, exigindo, até implorando.
Existe esse mesmo tipo de encarceramento da alma, em indivíduos que tiveram ou passaram por um trauma ou privação de algo que lhes era essencial - e foi retirado. Até o olhar é parecido.
Não ocorre uma amputação, mas uma fome antiga, hambre del alma como é chamada em muitos mitos, e lendas.
Não consigo ficar muito tempo ali, do mesmo modo que não posso estar perto de pessoas truculentas, ideologicamente sacanas, arbitrárias, de crueldade exposta. Algumas estão visivelmente feridas, outras eu chamo de ¨câncer da espécie¨, quando sem razão aparente, nem presente ou passada, a perversidade impera. Governantes, autoridades públicas, e pessoas comuns. Novamente, é através do olhar, mais que de observação de comportamento; o olhar captura sentimentos e intenções sutis e escancaradas.

Já a minha fome, se sacia um pouco, quando posso criar. Me expressar como sou, (e da mesma maneira, a privação quando me sinto impedida, cerceada, inibida - a nossa cultura é uma grande inibidora, punitiva, bem como recompensadora de comportamentos e posturas, em detrimento de outras. Nem sempre saudáveis ou sãs). Em um poema, um texto, quando danço, sozinha ou não, quado faço yoga e medito, voltando-me pra ver. 
Quando posso realmente me conectar com outra pessoa. Pessoas que amo, como minha companheira, meus amigos,  família, e até os que já se foram deste plano, de uma consciência para outra. Meus cachorros também, e profundamente, olho pra eles dentro dos olhos e digo "amo você" e sei que eles sabem disso.
Muitas vezes, e cada vez mais, pessoas que vi uma ou duas vezes, e até as que só troquei um olhar, abraçando por dentro.
Me alimentam esses sorrisos. Tem uma alegria deliciosa essas pequenas trocas. E a alegria é "a seiva da vida, o alimento do espírito e a vida da alma reunidos num só". 
Aplacam minha fome por justiça, por igualdade, me inundam de sabedoria gentil, respeitosa, transmitida em insights necessários.
Desses que partilham da mesma vontade pacífica de mudanças, aqueles que conheço, e que ainda não vi, os que ainda conhecerei.

¹Mulheres que Correm com os Lobos, cap 8. A preservação do Self

abril 15, 2014

H.D. Thoreau

"Fui à floresta porque queria viver profundamente, 
e sugar a essência da vida
abandonar tudo que não era vida, e não, ao morrer, 
descobrir que não vivi"

*(Revi  Sociedade dos Poetas Mortos, e peguei  meu manual-livro A Desobediência Civil
Só pra me lembrar dos propósitos e me abrir um sorriso enorme - no coração).

Livro de Cabeceira

"É tanta notícia triste. Patriarcalismo, misoginia, moralidade rebanhesca, etcétera e tal.
No mundo ideal, as pessoas leriam mais livros.  Nuas."

Pego de Erika Schade, uma pensadora original ( e atrevida!) nestes tempos de desalento.
Já eu, escreverei poemas de amor, dor, de luxúria, jocosos e politicamente insuportáveis. na pele.



abril 09, 2014

Elegia


Nush Élouard and  Sonia Mossé. Paris. 1935.
 Man Ray's photo.

¨Meu coração não se cansa de ter esperança, de um dia ser tudo que quer...¨

Pra nós mesmos


Tristes Trópicos

Há algumas semanas, quinhentas (ou mais) pessoas, marcharam nas ruas de SP com saudades da Ditadura.
Ao invés de só ler essa notícia, ainda recente, e seguir com coisas cotidianas, também importantes, eu parei e, na verdade, ainda penso nisso.
Desde os novos reacionários - fantoches, Bolsonaro e Feliciano et all, relacionar os fatos incontestáveis do florescimento -e fortalecimento- da direita no Brasil. A bancada política evangélica, e cristã, deputados e senadores organizados em siglas de partidos que os representam. Nem é preciso dizer o quanto se relacionam à essa marcha; a direita, o militarismo, e as religiões acima.
Desde a ditadura estamos escavando, rememorando, e divulgando erros do passado, em livros, documentos, provas de tortura, de prisões, de exílios...
Todos registrados em película, tratados, gravações, as provas pra fixar na memória, um pouco, à esse povo esquecido de sua História. E como no passado, muitos bocejavam, desatentos aos fatos, ao desenrolar desse Brasil que repete lentamente, triste essa mesma litania.

Com a diferença fundamental que, naqueles tempos, existia uma esquerda engajada e organizada atuando agressivamente no contra-controle do status quo. Hoje, estagnados. Desorganizados. Ou em partidos frágeis e pior; individualistas até o tutano dos ossos. Onde estará nesse século do desprazer e desalento, um Lamarca, ou Mariguela pra nos inspirar...

E ainda me pergunto, se a ditadura, (não aquela que lemos no jornal, ou vemos nas telas e documentários, mas esta outra que vem surgindo, no mesmo caminho) acabou mesmo.

The Celluloid Closet

Mais do que beijos em telenovelas (que tem sua função de tornar popular e natural o que já é), pra o público geral. 
A quem gosta, ou queira entender de cinematografia LGBT, como foi retratado ao longo de 100 anos em documento visual impecável. Baseado no livro de mesmo nome, de Vito Russo, o livro contém maior teor político, mas o filme tem a vantagem do humor; ora autodepreciativo, ou caricato; ora mais leve, jovial e terno. O que chama a atenção, e é importante na película, é a trajetória contada por muitas vozes do cinema: escritores, roteiristas, diretores, políticos, líderes religiosos, atores e atrizes renomados e antigos. 
É dos meus filmes preferidos, e já ganhou prêmios em diversos festivais, além de ser repassado aqui no Brasil, em encontros, simpósios e atividades relacionadas à educação lgbt.  
E como disse um cineasta ano passado, (Bruce LaBruce) "a homossexualidade é uma chance de não ser conformista".     E eu digo,  não ser invisível. 
Creio que como gays ou lésbicas, ser agentes de mudança é quase caraterística inseparável, de tanto que a gente é citado, cutucado, incomodado. O que não faltam são adjetivos por toda a História para nos retratar. Reescrever como nos vemos, e nos veremos no futuro, também é resultado desse entendimento.  

abril 03, 2014

Aqui, onde moram meus encantos

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou olhar de pássaro - 
contraiu visão fontana
por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
Manô de Barros

Vista da chegada em Igatu, Chapada Diamantina, desde os 16 anos, nunca deixo de registar os encantos, as cores e os sons, pequenas grandes belezas. 

Poema Vivo


Poesia tem um sentido maior que de fazer rima ou falar de sentimentos. Ou de caber numa folha de papel.
Quando se lê ou escreve, é como ter a memória de muitas pessoas de uma só vez.
Poema extravasa seus bordos pra alcançar a tudo, e todos com manto invisível de significados.
Como se reunisse naquelas palavrinhas o que todos sentiram juntos.
É aquilo que você disse, tocou-me, e eu vi e senti tão perto de você. Nesse momento vi com teus olhos, senti o sabor de estar ali com você. Senti o frio, e me aqueci com o calor do que me disse. Senti a fome e saciei porque me inundou de alimento pra alma.
Senti o carinho de suas palavras, e nisso, sentimos algo juntos, eu, você... que tiveram expressão no mundo além palavras. O que aconteceu comigo neste despertar da leitura, foi que alcei um vôo longo, interno e profundo, com mil outras leituras anteriores, conjuntas. E mudei um pouco também, porque deixei-me religar a esses outros alguéns.  Alguéns estes, e tantos, que moram em mim, com vozes e tons poéticos, a mesma rede de sentires.

Leiam poemas, escrevam poemas, bebam, comam, respirem, inspirem... poemas. Pois como disse algum desses poetas, poesia vai salvar o mundo, ou nas minhas próprias, vai adoçar a aridez de corações. 

abril 02, 2014

Numinoso

Em 1937, Jung escreveu sobre a experiencia do numinoso como;
      "Uma instância ou efeitos dinâmicos, não causados por um ato arbitrário da vontade.  Pelo contrário, ele arrebate e controla o sujeito humano, que é sempre antes sua vítima   que seu  criador. O numinoso - indiferentemente quanto à causa que possa ter - é uma experiência do sujeito, independentemente de sua vontade. O numinoso é tanto uma qualidade pertinente a um objeto visível, como a influência de  uma   presença invisível que causa uma pequena alteração da consciência. "

Numinoso

Contemplar o céu noturno é uma das atividades mais antigas do homem. Em volta da fogueira, povos antigos perpetuavam um costume valoroso e de reverência aos mistérios. Assim como os lobos apontam para o céu, ou a lua, num som que mistura lamento, saudade, e adoração; Reunidos, o som mais primitivo de seus ancestrais, um chamado para que estejam com eles.
Os homens também o fazem, erguendo a cabeça para o céu; o misto de assustadora compreensão
de sua extensão não-humana, admiração em absorver esses signos.

Olhando para o céu e dentro das estrelas, a fixidez dos diamantes, não emitimos nenhum som.
Ao invés dos lobos em sua saudação; só no silêncio inquieto,
com as pupilas dilatadas pra alcançar a visão da noite, a eletricidade do corpo como testemunha.
Assim toda a transmissão, a troca cósmica, nesse instante, e somente nesse instante fora do tempo,
se disseminou um algo, um estado tal, um conhecimento que nos atravessa como a própria luz,
incorpórea, imaterial, real como este aqui e agora.
A humanidade inteira na mesma memória ancestral, o primitivo e o presente, os homens e o lobos -
a substância que reúne aquele Universo em Si.


The beauty, the beast

Que há pra perceber
O que eu quero é encontrar a Beleza.
Nas ínfimas, mínimas e cotidianas,
nas eternas coisas mundanas. Humanas.