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abril 22, 2014

Hambre del alma - fome da alma

À luz da psicologia, Jung propôs que os instintos seriam derivados do inconsciente psicóide, aquela camada da psique na qual a biologia e o espírito talvez se encontrem.

A analista junguiana Clarissa Pinkola Estés¹, além de concordar, arrisca propor que se o instinto criador, em especial, tanto é a expressão lírica do Self, quanto a simbologia dos sonhos.
Etimologicamente, a palavra instinto deriva do latim instinguere, que significa incitar ou induzir uma inspiração inata, bem como de instinctus, que significa "impulso". A idéia do instinto pode ser valorizada como alguma coisa interna que quando mesclada com a previsão e a consciência, orienta os seres humanos em um comportamento integral.

"Chamem do que quiserem - a união com o lado selvagem,  esperança no futuro, uma corrente de energia, a paixão pela criação, um jeito de ser, de fazer, o ser amado, o noivo selvagem, a ¨pluma pousada no sopro de Deus¨".

Minha fome tem a ver com justiça social. Desde muito pequena, eu ficava triste, enfurecida, ou em acessos de retraimento e silêncio, quando via formas de injustiça, animais serem machucados, abandonados, ou negligenciados. O mesmo acontecia com crianças que tinham muito pouco, daquilo que achava que deviam ter, atenção, carinho dos adultos, mais paciência e amor.
Com idosos, quando vejo que os mais novos perdem o tato, bom senso, a paciência, quando precisam executar uma tarefa, o fazem de mal jeito, à contragosto, apressadamente, ou automatizado; como se tratasse de um objeto, um objeto sem valor.
Ou infantilizando-os, inferiores, dementes, incapazes.
Infantilizam crianças, idosos e adultos, de todas as idades, tamanho, origem, razão social e econômica.
E eu nestas circunstâncias sinto o peito apertar, sufocamento, - é o que a sensação de injustiça me causa.
É minha fome da alma, urgindo, uma vertigem por  todo o corpo, uma mobilização forte me impelindo a agir, proteger.
Já viu um animal engaiolado?  Seja que animal for, primata, felino, pássaro... O olhar que eles tem, me atravessa a alma, está ali transbordando um pedido, exigindo, até implorando.
Existe esse mesmo tipo de encarceramento da alma, em indivíduos que tiveram ou passaram por um trauma ou privação de algo que lhes era essencial - e foi retirado. Até o olhar é parecido.
Não ocorre uma amputação, mas uma fome antiga, hambre del alma como é chamada em muitos mitos, e lendas.
Não consigo ficar muito tempo ali, do mesmo modo que não posso estar perto de pessoas truculentas, ideologicamente sacanas, arbitrárias, de crueldade exposta. Algumas estão visivelmente feridas, outras eu chamo de ¨câncer da espécie¨, quando sem razão aparente, nem presente ou passada, a perversidade impera. Governantes, autoridades públicas, e pessoas comuns. Novamente, é através do olhar, mais que de observação de comportamento; o olhar captura sentimentos e intenções sutis e escancaradas.

Já a minha fome, se sacia um pouco, quando posso criar. Me expressar como sou, (e da mesma maneira, a privação quando me sinto impedida, cerceada, inibida - a nossa cultura é uma grande inibidora, punitiva, bem como recompensadora de comportamentos e posturas, em detrimento de outras. Nem sempre saudáveis ou sãs). Em um poema, um texto, quando danço, sozinha ou não, quado faço yoga e medito, voltando-me pra ver. 
Quando posso realmente me conectar com outra pessoa. Pessoas que amo, como minha companheira, meus amigos,  família, e até os que já se foram deste plano, de uma consciência para outra. Meus cachorros também, e profundamente, olho pra eles dentro dos olhos e digo "amo você" e sei que eles sabem disso.
Muitas vezes, e cada vez mais, pessoas que vi uma ou duas vezes, e até as que só troquei um olhar, abraçando por dentro.
Me alimentam esses sorrisos. Tem uma alegria deliciosa essas pequenas trocas. E a alegria é "a seiva da vida, o alimento do espírito e a vida da alma reunidos num só". 
Aplacam minha fome por justiça, por igualdade, me inundam de sabedoria gentil, respeitosa, transmitida em insights necessários.
Desses que partilham da mesma vontade pacífica de mudanças, aqueles que conheço, e que ainda não vi, os que ainda conhecerei.

¹Mulheres que Correm com os Lobos, cap 8. A preservação do Self

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