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julho 08, 2014

Tarja Branca, um brincar adulto.




Existe uma multidão de bobos por aí.  Muitos adultos. Temos muitas idades, muitos tamanhos reais. A infância é uma fase mágica que costumam romantizar sem seriedade lúdica. Não porque é idealizada por poetas, pintores, artistas e até acadêmicos, mas porque carregamos pra vida inteira. 
 Em todas as fases da metamorfose da vida humana, somos nós os transformadores dessa condição. Trazer o imaginário à tona na adultez, é recuperar uma parte nossa esquecida, ou empoeirada. O imaginário, pertence à natureza humana, e nos dá equilíbrio. As vezes cair é com graça. 
O que há de graciosidade nisso é o prazer que se tira do absurdo. Tirar de dentro o seu brincante
No imaginário, existem os sátiros, o curupira... Já o bicho-homem tem seu brincante quando faz essa ligação com o imagético pessoal.

O que nada tem  haver com ser ou não ser "sério", ou "respeitável", mas com o driblar condicionamentos que atropelam. Robotizam. (Ponha 'sério' no dicionário e verá sisudez, severo...) O mais provável é o sério e respeitável  tenha mais haver com solene, austero, soturno; do que a seriedade fluida da adultez. 
Se o filme fala da Folia de Reis, do Bumba meu Boi, dos Mascarados, ao Cavalo-marinho, eu acho que é o terreno intuitivo, original, que escapa completamente à razão, mas a gente entende do que é. 
É uma imagem libertadora da força do lúdico, que atravessa todos os tempos, as idades, as seguranças inseguras, pra desaguar na necessidade psíquica. 

O poder transformador do riso, de que uma das pessoas fala no filme, tem que passar pelo neurocientista, psicólogo, pedagogo, sociólogo, antropólogo, e não sei mais quem, que com estudos em Harvard, traz que o riso solta o corpo, faz sinapses novas, oxigena o cérebro, estimula os neurônios...  Pra chegar à conclusão do rejuvenescimento e alegria que causam no corpo, no coração, na alma saudável.   Ufa..Até que enfim..! 
Já não era sabido quando se brinca com seu filho/a, quando faz caretas, quando entra num jogo,   qualquer que seja, e dá uma gargalhada gostosa? Muitas mulheres eram proibidas de gargalhar porque isso era considerado obsceno. Rir alto, o dar gargalhadas é uma libertação do corpo, muito parecido com o orgasmo, mas também das convenções sociais. E passado se mostra na história que assimilamos. (Ou não!) 
Só pra não deixar passar, pra Piaget e Vigotski o jogo e a ludicidade tem caráter primordial no desenvolvimento da criança em inúmeros subníveis, de afetividade, motricidade, inteligência, sociabilidade, criatividade...entre ela criança, e o universo infantil e o meio adulto. O brincar é atividade que constrói significados através dos signos culturais. Mas e o brincar adulto..?

Tudo bem, então os cientistas sociais concordam com a voz da cultura popular. O jogo da capoeira é um brincar sério. Há mestres de capoeira que são sábios brincantes de nos ensinar pela sabedoria do corpo aquilo que passa por outras inteligências, e outras ordens, no olhar e movimento do corpo.
É bonito de ver. É uma espécie de transe organizado no coletivo e atividade profundamente lúdica.

Fico pensando porque nós temos que passar a vida inteira, essas etapas todas, idades, até praticamente à velhice (ou melhor idade, como queira..), sendo carrascos de nós mesmos, censurando ou reprimindo a criança incrível e bela que temos, e que a todo momento está ali incansável, cutucando e sorrindo, nos chamando pra brincar.
Acho que não é tão tranquilo, esse resgate do lúdico adulto, quando se passam anos na malha social engessante. Parece mais fácil ser como os outros, não se deixar tocar pela delicadeza, aprisionar o ser sensível, intuitivo e criador dentro da gente. 
Mas também não é confortável a gaiola que nos metemos. Padronização que embrutece.
Aí, o que acontece é a mais pura magia, e de nossa criatividade infinita, o incluir entre uma situação e outra, entre a moldura que nos impuseram(e nos auto-impomos), os acordes sensíveis de não perder a essência do brincante. 

Vejam esse filme. Qualquer um, de qualquer idade. Eu podia ficar aqui falando pra sempre, (mesmo), rs, e você vai ter só uma ponta do vislumbre de que to tentando dizer. Veja e se desarme. Desague, ame.  

2 comentários:

  1. Parabéns Sol. ótima análise. Se ver algum site onde eu possa baixar esse filme me fala.
    O brincar adulto é uma ótima pergunta... O adulto quase não tem opção, além de produzir; A não ser viajar, cuidar da aparência e obrigatoriamente ser saudável e sucedido. Esta é a felicidade que se vende.
    Acho que, até das crianças, a brincadeira está sendo retirada. Dia desses estava lembrando da minha infância em Camaçari, onde os meninos usavam apenas shorts minusculos e brincavam a tarde. Com a noite, a turma todo reunia na frente lá de casa na hora do Jornal. E quando aglomerava mais e mais gente, sempre rolava um baleado, 5 cortes ou basquete! É por isso, em respeito a minha história, que eu não relego o meu corpo. Enquanto puder, sou viva, me movimento, danço, jogo vôlei, ando de bike, uso shorts. Não ser convencional não é simples, mas é mais genuíno. Beijos, irmã

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  2. Procurei semana passada, mas não achei nenhum link confiável pra esse doc. Mas recomendo ver no cine Glauber, quando você estiver na cidade. O filme nos dá outras oportunidades de pensar o brincar, fora também dos esportes. É uma habilidade para o cotidiano, para o trabalho, pra enfrentamentos e resoluções, o filme fala de uma maneira de ser perante às situações, não só de se comportar, por isso achei tão bonito e necessário. Pensei muito em você. Beijo, irmãzinha.

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