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dezembro 15, 2015

Asas do Desejo

"Quando a criança era criança, andava balançando os braços
desejava o riacho ser rio
que o rio fosse torrente
e essa poça o mar.
Quando a criança era criança, não sabia que era criança.
Tudo era cheio de vida, e a vida era uma só.
Quando a criança era criança, não tinha opinião.
não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, saía correndo, tinha um redemoinho no cabelo, e
não fazia pose pra fotos"

Win Wenders, Asas do Desejo
''Enfim louca, não mais solitária.
Enfim louca,. enfim liberta.
Enfim louca, enfim em paz.
Enfim uma tola, uma luz interior."



                                   Asas do Desejo, Win Wenders, 1987.




















(Mas isso é o bobo, o trickster..!)

novembro 24, 2015

A Importância dos Sonhos


''O homem utiliza linguagem escrita ou falada para expressar o que deseja comunicar. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos. [...]
 O que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós. Muitos monumentos cretenses, por exemplo, trazem o desenho de um duplo enxó. Conhecemos o objeto, mas ignoramos suas implicações simbólicas. Tomemos como outro exemplo o caso de um indiano que, após uma visita à Inglaterra, contou aos seus amigos que os britânicos adoravam animais, isso porque vira inúmeros leões, águias e bois nas velhas igrejas. Não sabia (tal como muitos cristãos) que estes animais são símbolos dos evangelistas, símbolos provenientes de uma visão de Ezequiel que por sua vez, é análogo a Horus, o deus egípcio do Sol e seus quatro filhos. Existem, além disso, objetos como a roda e a cruz, conhecidos no mundo inteiro, mas que possuem, sob certas condições, um significado simbólico. O que simbolizam exatamente ainda é motivo de controversas suposições. [...]

Assim, uma palavra ou imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto "inconsciente" mais amplo, que nunca é precisamente definido, ou inteiramente explicado. E nem podemos ter esperanças de tentar de defini-lo ou explicá-lo. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a idéias que estão fora do alcance de nossa visão. 
A imagem de uma roda pode nos levar a ideia de um sol "divino". Quando, com toda a nossa limitação intelectual, chamamos alguma coisa de "divina", estamos dando-lhe apenas um nome, que poderá estar baseado em uma crença, mas nunca em uma evidência concreta.  [...]

Há motivos históricos para esta resistência à ideia de que existe uma parte desconhecida na psique humana. A consciência é uma muito recente da natureza e ainda está num estágio ¨experimental¨. frágil, sujeita a ameaças de perigos específicos e facilmente danificável. Como os antropólogos já observaram, um dos acidentes mentais mais comuns entre os povos primitivos, é o que eles chamam de ¨a perda da alma¨ - que significa, como bem indica o nome, uma ruptura (ou, mais tecnicamente, uma dissociação) da consciência.

Entre esses povos, para quem a consciência tem um nível de desenvolvimento diverso do nosso, a ''alma'' (ou psique) não é compreendida como uma unidade. Muitos deles supõem que o homem tenha um "alma do mato" (bush soul) além da sua própria, alma que se encarna num animal selvagem ou uma árvore com os quais o indivíduo possua alguma identidade psíquica. É a isso que o ilustre etnólogo francês, Lucien Lévy-Bruhl denominou de ¨participação mística¨. Mais tarde, sob pressão de críticas desfavoráveis, renegou esta expressão mas julgou que seus adversários é que estavam errados. É um fenômeno psicológico bem conhecido aquele de um indivíduo identificar-se, inconscientemente, com alguma outra pessoa ou objeto.  

Essa identidade entre os povos primitivos toma várias formas. Se a alma do mato é a de um animal, o animal passa a ser considerado uma espécie de irmão do homem. Supõe-se, por exemplo, que um homem que tenha como irmão um crocodilo possa nadar a salvo num rio cheio destes animais. Se a alma do mato for uma árvore, presume-se que a árvore tenha uma espécie de autoridade paterna sobre aquele determinado indivíduo. Em ambos os casos, qualquer mal causado à alma do mato é considerado uma ofensa ao homem. 

Certas tribos acreditam que o homem tem várias almas. Esta crença traduz o sentimento de alguns povos primitivos de que cada ser humano é constituído de várias unidades interligadas apesar de distintas. Isso significa que a psique do indivíduo está longe de ser seguramente unificada. Ao contrário, ameaça fragmentar-se muito facilmente sob o assalto de emoções incontidas. 
Mandala pintada por Jung,; Livro Vermelho



                                                                 O Homem e seus Símbolos; Carl G. Jung, 2 ed especial brasileira, - Rio de Janeiro, 2008. p. 18 -19, 23-24-25-23-24


(À isso, seria chamada cisão do ego, ou uma fragmentação que dá origem às neuroses, de muitos tipos e nomenclaturas. A primeira parte do livro, é escrita por Jung, e evidencia, quão ampla e insondável é, nossa vida guiada por decisões e direcionamentos do Inconsciente. E outra através da linguagem e principalmente depois da escrita como apreendemos o mundo por símbolos

novembro 23, 2015

A Alma do Homem

"Aquilo que chamamos de consciência civilizada não tem cessado de afastar-se dos nosso instintos básicos. Mas nem por isso os instintos desapareceram: apenas perderam contato com a consciência, sendo obrigados a afirmar-se de maneira indireta. Podem fazê-lo através de sintomas físicos, como no caso de uma neurose, ou por meio de incidentes de vários tipos, como humores inexplicáveis, esquecimentos inesperados, e lapsos de palavra.
O homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma. Mas enquanto for incapaz de controlar os seus humores e emoções, ou de se tornar consciente das inúmeras maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes se insinuam nos seus projetos e decisões, certamente não é seu próprio dono. Esses fatores inconscientes devem sua existência à autonomia dos arquétipos. O homem moderno, para não ver essa cisão do seu ser, protege-se com um sistema de "compartimentos".Certos aspectos de sua vida exterior e do seu comportamento são conservados em gavetas e separadas e nunca confrontados uns com os outros.

(...) Esse é um aspecto da mente ¨cultural¨ moderna que merece nossa atenção. Revela um alarmante grau de dissociação e confusão psicológica . Se, por um instante, considerarmos a humanidade como uma só pessoa, verificaremos que a raça humana lembra uma pessoa arrebatada por forças inconscientes. Também ela gosta de colocar certos problemas em gavetas separadas. Exatamente por isso deveríamos examinar com mais atenção o que fazemos, pois a humanidade hoje em dia está ameaçada por perigos mortais criados por ela mesma, e que já escapam de seu controle. Nosso mundo encontra-se, pode-se dizer dissociado como se fosse uma pessoa neurótica, com a Cortina de Ferro a marcar-lhe uma linha divisória simbólica.   O homem ocidental, consciente da busca agressiva de poder do Oriente, vê-se forçado a tomar medidas extraordinárias de defesa enquanto, ao mesmo tempo, vangloria-se de suas virtudes e boas intenções.
O que ele deixa de ver é que são os seus próprios vícios - que dissimula com muitas boas maneiras no plano internacional - que lhe são atirados de volta ao rosto metodicamente e sem nenhum pejo pelo mundo comunista. O que o Ocidente tem tolerado (mentiras diplomáticas, decepções contínuas, ameaças veladas), mas em segredo e um pouco envergonhado, é-lhe devolvido frontal e prodigamente, pelo Oriente, que nos amarra a todos com muitos ¨laços¨ neuróticos. É o rosto de sua própria sombra malévola que faz caretas ao homem ocidental, do outro lado da Cortina de Ferro".
         O Homem e seus Símbolos, Carl G. Jung, 2 ed especial -Rio de Janeiro, 2008;  p. 104-105

¨O Sétimo Selo¨ (Dir. Ingmar Bergman)


novembro 21, 2015

c.ps.

Quem é você pra me julgar
Eu sou aquela que tem xxx anos, e não diz o nome
os nomes são ditos e nenhum tem significado
eu espero...
eu esperava que nós tivéssemos chance
eu ainda aguardo um chamado.
Você ouve daí..
Daí de longe nós somos os mesmos que ouvimos,
e esperamos.
Es pera espera espera espera espera espera.
Não vou viver tanto, daí de longe, escuta...
Derrama, espalha, faz forma
um copo, uma tábua, recipiente...
Espinhosa, estridente, aguda e avessa, que formato eu teria?
Que forma eu posso ter, com  tantos quereres,
os anseios vem tão de longe, quanto de dentro,
querem querem querem, querem,
estamos todo juntos, aqui!
Anseiamos pelo bem da sua vida, anseiamos igualmente pela vida não despertada daquilo que não despertares... Acorda de teu sono de prazeres, desperta do seu sono de alheiamento, desperta de onde estiveres.... de tão longe vês o teu outro, o teu amigo, o teu colega, o teu próximo... onde você está que nada vês? Desperta de teu sono profundo e do alheiamento, eu te dou o anseio do outro, que vibra a vontade que de você se dará...

faz como queres...
Água não responde mais,
Não queres mais formato que cai
inverteu-se
Quem és, ainda és forma e formato: água.
Amor - de Francesco Clemente
Agora: nenhuma dor vai te atingir, nenhuma onda vai te arremessar, nem teus olhos ficam acesos,  semicerrados, nem teus seus seios encolherão, ou seu corpo inteiro se expandirá.
Você ainda tem medo?
acostumada, revelada, desnuda, o que sobra
o que ela queria mesmo no início..
Você lembra?
Lembra?

novembro 17, 2015

Cura Empoderada




Quando eu me curo, curo a ti. Ao receber, espalho...Me banhei no colo sagrado do mar.
Faço um aliança com meu serviço e louvo.
Faço uma aliança com meu serviço e louvo...

novembro 15, 2015

Vivavivaviva

Mahayana (1897 -1963)

11, junho, 1963.  O silêncio ensurdecedor.

( Das perguntas) escombros e avante...

Como Rimbaud, eu também tenho minhas perguntas..

"A quem devo me confessar
A quem devo pedir perdão
A quem buscar redenção
Que sacra imagem, nome ou força
devo temer, idolatrar?
A quem devo deixar meu sangue e minha vida escorrer
Por que ou por quem lutar
Qual relógio devo obedecer
Por que rua devo caminhar
Que coração devo partir
Que medo devo adquirir ou reprimir
Que prazer preciso ter ou evitar
Qual gênero devo escolher
A que banco devo me associar
Com qual venda devo meus olhos cobrir
Quais sons devo calar
E qual pergunta devo fazer
E qual resposta devo esperar
Que mentiras devo conservar
que caminho devo seguir
Que dor devo pisar
Qual autoridade devo atacar
Qual espelho preciso quebrar
E qual, quem, o que;
Por favor!
Devo me desculpar
por dia após dia, insistir
Em procurar por quem e a que lutar e amar
Por favor, a quem devo pedir
Paz e amor, a quem devo pedir compreensão e
A quem devo pedir um favor?
Por favor, Quem?"

Arthur Rimbaud, Une Season en Enfer



novembro 08, 2015

Tarot


Pensamento autônomo e criativo é falsamente estimulado nas instituições. Qualquer que seja. Só aparentemente é que se sorri (externo), a uma consideração, criação, ou pensamento fecundado. Verdade é o não-dito que se deve fazer, é exaltar o seu antecessor, professor, autor... mas criar por si mesmo? Mostrar outro rumo.? Controvérsias. Há um breve limite entre o que se pode aprender com antecessor, e outro, em que se busca dentro de si mesmo.
Observo, guardo, aprendizados alguns, outros saem pelo vão do filtro. 

novembro 05, 2015

A Grande Mãe

"A problemática do Feminino tem exatamente o mesmo significado para os psicólogos da cultura, que reconhecem que a ameaça à humanidade atual assenta-se, em grande medida, no desenvolvimento patriarcal unilateral da mentalidade masculina, que não é mais compensado pelo mundo 'matriarcal' da psique. É nesse sentido que a apresentação de um mundo psíquico-arquetípico do Grande Feminino, que tentamos com o nosso trabalho, é também uma contribuição para o estabeleciemento de uma futura terapia da cultura. (...)

O modelo ideal de Psicologia Profunda do futuro é o desenvolvimento do indivíduo até que ele atinja sua totalidade psíquica, na qual o seu consciente esteja criativamente unido ao conteúdo inconsciente. Somente essa integração total do indivíduo pode tornar possível uma qualidade de vida melhor pra sociedade. Se, num determinado sentido, o corpo são é a base de um espírito e de uma psique sadios, mais ainda um indivíduo sadio serve de a uma sociedade igualmente saudável. (..) A assimilação do universo arquetípico leva a uma forma interior de humanização que, por não ser um conhecimento da consciência mas sim uma vivência do ser humano total, mostra-se-á ainda mais confiável do que a forma de humanismo que conhecemos, desprovida de bases psicológicas profundas. Parece-me que um dos sintomas decisivos dessa nova humanização é o desenvolvimento, no indivíduo e na comunidade, de uma consciência psicológica sem a qual é impensável uma futura evolução da humanidade ameaçada."

A Grande Mãe - um estudo Fenomenológico da Constituição Feminina do 
Inconsciente, Erich Neumann, Cultrix.
                                                                                                                            

outubro 25, 2015

Verbo Ser

O ser sensível é aquele que sente em maior intensidade, em  graus maiores as pequenas coisas ditas, percebidas. As vezes até aquilo que foi deixado por dizer, o não-dito. Sensibilidade é o sentir maior e aguçado das sutilezas, os pequenos tons e notas. 
Envolve às vezes alguma delicadeza também. 
Hoje em dia, é extremamente difícil manter viva essa delicadeza, e a sensibilidade. 
Nas relações os conceitos pré-concebidos, e a espera pela resposta usual, pronta, pré determinada, sintônica com uma maioria, mata as sutilezas, não deixa espaço pro mistério. 
Me sinto quase feliz de me perceber desajustada. Um desajuste social que me lembra a todo momento que não estou na engrenagem de capitalizar-lucrar-investir, minhas emoções e minha sensibilidade.
Apagam as delicadezas, e a própria sensibilidade que alguns teimam em cultivar, apesar de.

A urbe urge. Suas urgências rugidas...
E você tem suas próprias inclinações e sentires pessoais distoantes. Marginais até. Tem que ter o ego e o self  fortes, individuados.Ego é o centro do seu ser, ele precisa existir pra você existir, ou um existe à priori..? De todo modo ele não pode inflar e tomar o mundo todo. Tampouco cometer egocídio, pois seria o suicídio da alma. Ser o si-mesmo. Ser consigo, em confluência de si em si. Self é você. 
Então seguir regras próprias, inclinações, gostos.. Seguir seu centro, seu self, é seguir seu caminho natural.
Pra ser menos abstrata e dar um exemplo, não como carne, se me relaciono com o mesmo sexo, se minha espiritualidade transita pelo matriarcado e o paganismo, se ouço determinadas músicas, etc.. São essas escolhas, gostos, inclinações, orientações que me constituem, estão ligadas afetivamente, espiritualmente a mim; são quem sou, por onde passeio. O autor que melhor descreve isso de que falo é Zigmunt Bauman em  Amor Líquido. As relações em conflito pela indiferença ou excessivo individualismo. A não-percepção de quem o outro é.

As relações que vejo e percebo, em sua maioria, tem quase sempre a dinâmica do poder e do ceder. Dificilmente a do só ser. Ceder ao outro vez ou outra é saudável, ceder sempre, ininterruptamente é abdicar de e do si-mesmo. É preciso ter coragem e persistência pra manter-se atento a seu centro. Com cuidados e o ser sensível que existe em cada. A subjetividade de alguém é tão ampla, tão infinitesimalmente oceânica, como se pode achar que é capturável? Aprisionada em conceitos e gavetas das convenções sociais, determinada pelos pre-conceitinhos minúsculos de cada cabeça-limite...?  
O poder de um sobre o outro quando vejo um gritar pra ser ouvido, ou gritar pra anular o outro, eclipsa-lo, emudecê-lo. Melhor é dar ouvidos e ser ouvido em retorno. Tem alguém, algum poeta na certa, que disse que temos que gritar pra que nossa voz chegue ao coração do outro, que está com o coração longe também. Então falamos cada vez mais alto, pra que o outro lá longe, escute talvez. 

Outro ser sensível de que gosto, chamado Rubem Alves, disse que há muitos cursos de oratória, mas nenhum de escutatória. Porque escutar é tão mais raro quanto amar ou silenciar. Pra mim ambos parte um do outro. E a voz interior que nos habita e que ignoramos nos diz pra escutar, ver, observar, perceber. Sentir sua integralidade.  Suas qualidades demonstráveis, os defeitos ocultados, suas profundezas misteriosas. Contemplar, é um tipo de meditação atenta, que praticada, nos eleva a percepção. 
Saramago escreveu em prefácio: ''se podes ver, enxerga''

Esse mundo não é só feito de sins e nãos, mas principalmente de ambivalências sentidas, de meios-termos, de meios-tons nem tão geniais, nem tão imperfeitos. Demasiado humano, o verbo ser. 


setembro 07, 2015

(Alegre Epifanis dionisiaca)

Breve história do xamanismo (Alegre epifanis dionisiaca)
Roberto Piva

Hegel procurou seu protetor xamânico na
flor negra
Novalis na flor azul
São Francisco quis perpetuar seu tótem no cântico
delle Creature
o gavião de penacho
fez a cabeça de
Oswald de Andrade
o girassol de madrugada
dissipou a couraça
católica de Mário
(o clã jabuti agradece)
Hölderlin dançou
em torno do Éter
como um navajo
Trakl escureceu o dia
com seus pântanos e miasmas
Dante atravessou 3 reinos em êxtase
viu a luz no fim do túnel
Lautréamont se comparava à águia e ao dragão
Pasolini sonhava com o centauro
Gonçalves Dias e seu sabiá melancólico
Ionesco criava rinocerontes ameaçadores
O Sol negro levitou Artaud
até o céu do peyote
Michaux às vezes incorporava o rio negro
Alma de Eliot onde trota o arganaz
Walt Whitman e seu martim pescador revoando o crepúsculo
D.H.Lawrence chamou todos os animais
E plantas em seus poemas
Giambattista Vico incorporou um exu chamado Bestione
Willian Blake, poeta druida, incendiou o tigre nas florestas da noite
(suas profecias contra a sociedade industrial, todas vingaram)
Graciosa coxa de Pan alucinou Rimbaud
W.B. Yeats recebia um gnomo surrealista
Ovo primordial De Arp Águia ou Sol?
Onde Octavio Paz engatilha suas flores surrealistas
Um índio Hopi presenteou Jung com um urso de madeira
Jorge Luis Borges
E seus protetores imaginários
Guimarães Rosa janta hoje com Jaguaretê
Dino Campana entrava na gira de Orfeu
Leopardi & o Brasão onde o leopardo rampante gerou seu nome
Paracelso dizia que não devemos evocar elementares
(são as bruxas)
a Nasa treina astronautas no vácuo xamânico
eu espero o Sol/Gavião nesta colina que dança.



Embu, 1991

Junto com as deusas, o altar e as oferendas também são aos poetas escritores e magos que alcançaram outros mundos com a expansão da consciência e seus escritos anímicos.
Estou pra entrar no módulo de alquimia, então estou me preparando...

agosto 21, 2015

Siouxie and the Banshees


  Houve tempo que que não podia deixar de ouvir. 
                                                   Tortilleria Galicia, e os vinis saudosos...
                                                     dançar inteiramente sim sim sim....
                                     

                                                                                                       
                                                                                                                                            

Não Merecemos

Se o cristianismo tivesse razão acerca de um deus vingador, da pecaminosidade universal, da predestinação e do perigo de uma danação eterna, seria um indício de imbecilidade e falta de caráter não se tornar padre, apóstolo ou eremita e trabalhar com temor e tremor, unicamente pela própria salvação; pois seria absurdo perder assim o benefício eterno, em troca da comodidade temporal. Supondo que se creia realmente nessas coisas, o cristão comum é uma figura deplorável, um ser que sabe contar até três, e que, justamente por sua incapacidade mental, não mereceria ser punido tão duramente quanto promete o cristianismo.

(...)

Nietzsche

agosto 15, 2015

Bhajans -Krishna Das

Tirésias




Ouço e parece que há um saudosismo nela, uma saudade grande, ou algo que não foi preenchido,
e sente, se deseja, se anseia por..
Música_ Beethoven 7ª sinfonia, II movimento

''O Mito de Tiresias;
Os gregos vem à nossa frente, séculos antes quando nos conta sobre o profeta Tirésias de Thebas, que havia atrapalhado o ato sexual de duas cobras místicas, matando a cobra fêmea; ao fazer isso, foi transformado imediatamente em uma mulher,e assim vivei por sete anos - até que em um outro incidente semelhante - matou uma cobra macho - e voltou a ser homem.

Conta-se então, pediram à Tirésias que respondesse à pergunta que inquietava os corações de todos - Tirésias que havia sido homem e Mulher na mesma vida, era o único que podia responder quem mais realmente tinha  mais prazer. E Tirésias respondeu assim: " se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove, e o homem com uma".

Shere Hite, uma pesquisadora da sexualidade feminina, analisou depoimentos de treze mil mulheres norte-americanas, e observou que os relatos de dificuldades na obtenção de satisfação sexual por parte dessas mulheres americanas, decorria aos mecanismos de repressão social e cultural do que a fatores fisiológicos (a autora aliás conclamava às mulheres a se rebelarem e conquistarem o direito de usufruir do magnífico potencial do próprio corpo).

Uma vez que o mito de Tirésias sugeria ser a mulher capaz de usufruir do sexo, e Hite ( e outros) constataram que no cotidiano, era o homem o mais satisfeito, a resposta mais óbvia a que Hite chegou é que a mulher era um vulcão arrolhado pelas sociedades machistas, pelos preconceitos culturais e religiosos que a impediam de vivenciar tudo o que seu corpo poderia lhe proporcionar.
Na verdade, embora Hite estivesse certa quanto à repressão feminina, os homens também sofreram uma espécie de repressão de suas possibilidades de satisfação: a maior parte dos homens encara o sexo como uma disparada em linha reta, cega e obsessiva, nem muito curta nem muito longa,  rumo à um destino final.

Não há grandes preocupações com sutilezas da estrada.
Não há como dizer a proporção de influência biológica ou cultural que há neste comportamento, provavelmente um pouco de cada. E ao contrário das mulheres, os homens não discutem detalhes de suas vidas sexuais entre si, exceto para expressar de modo grosseiro suas vitórias. Nenhum homem costuma perguntar ao outro o que ele sentiu com a fulana, no máx um "e aí pegou ou não?" Penetrar ou penetrar resume tudo.

Desde a década de 70, quando Hite lançou seu relatório original, as mulheres, (com maior ênfase nas classes abastadas infelizmente), descobriram e consolidaram o direito de desfrutar melhor de seus próprios corpos.
Mas mulheres que tenham tido a chance de conhecer homens de gerações diferentes, devem ter percebido que os homens também não são mais os mesmos. Ainda que o biológico, provavelmente aquilo que o Tiresias se referia) continue impondo os mesmos instintos, e talvez realmente as mulheres possuam  um corpo mais afortunado para desfrutar as sensações relações amorosas, o acesso à informação sobre nós mesmos e sobre as mulheres, parece ter provocado mudanças de nosso comportamento masculino que nos abre algumas portas para diminuir as proporções de Tirésias.

Trabalhos como o de Hite e suas congêneres, que lutaram para libertar o corpo feminino, ironicamente também produzem algum efeito benéfico nos homens. Ainda que não conversemos com o detalhismo feminino sobre as particularidades de uma noite anterior, nós também já arriscamos algumas "dicas" que anos atrás seriam consideradas ofensivas (como se questionassem a masculinidade). E é possível aos poucos observar homens escrevendo sobre a experiência de desfrutar de um encontro amoroso em extensão e variedade muito maiores do que a fórmula tradicional (tradicional no mundo ocidental - ironicamente, os hindus e árabes da antiguidade já haviam atingido este nível quando o peso da religião e da influência ocidental os fez regredir).

Não há dúvida que esse paradigma é benéfico para ambos, mulheres e homens, e é de se perguntar (porque a lenda não diz ), se Tirésias encarou sua transformação em homem novamente, como uma transformação ou como um castigo..."

agosto 02, 2015

julho 29, 2015

preferidos

Reafirmo as paixões: a paixão, a arte, o inaudito e a misantropia regular em local ermo.

(O local ermo pode ser o que a consciência decidir, e pra mim está ótimo).

Eros & Thanatos




(Jane Birkin - Cannabis, 1970.
Ewan Macgregor The Pillow Book, 1996.)

julho 26, 2015

Quase Clarice

Quem é Clarice? Quem é essa mulher.. É mulher ela?
Vou te dizer quem é. Ela vive num salão enorme, e está rodeada de pessoas, uma festa formal, todos de trajes a rigor, segurando suas taças de prosecco. Ela está sozinha olhando numa janela grande. (Tudo é grande nesse lugar).
Ela se sente só ali. E olha em volta.
E tudo que vê são as pessoas tentando desesperadamente ser quem não são. Ser um outro alguém, longe de si. Tantos sorrisos, perfumes misturados, um esforço grande, que ela tem vontade de gritar. O corpo todo contraído, aperta taça contra o peito, uma vontade de dizer.. Dizer o quê?
Se sente só, se sente sublime, se sente minúscula, e ao mesmo tempo grande... Consegue absorver cada canto de músculo, cada suspiro que é reprimido, cada lágrima estrangulada na garganta. Vive, mas vive num terror imenso de se libertar. Eu perguntaria, como ela consegue? Como consegue respirar? Como é difícil fingir uma alegria plena, quando o que se tem é. Pessoas respirando seus sorrisos treinados, angústias que não cabem dentro, alívios momentâneos. Dores lancinantes. Pequenos espasmos. Fecha os olhos. Se vira de costas. De frente pra a janela. Abre os olhos.
E eu pergunto, quem é ela? Quem é essa mulher... Que mistério é guardado...












Escritos faz tanto tempo, mas parece que foi ontem. O gosto ainda é o mesmo, o sabor ainda é o forte, denso, muitas nuances em camadas enérgicas, de cada gole de Lispector.

julho 01, 2015

,que não seja blue.

Cada qual com seu objeto-desejo
em veementes balõezinhos,
todo o tempo estava parada,
e o formigamento da nuca sumiu,
a nódoa estrelada sumiu,
As linhas tracejadas, destinadas,
que se lêem as ciganas nas mãos também somem,
voluntariosas.
Fiquei acesa por dentro, tomando nota ensurdecida do silêncio, esperando um beijo que não seja blue.
Soraia M. Neves

Machuca

Dedicado a los niños de ayer
Tomara eu seja escolhido
escolhido no mar de bandeiras, umas cor de rosa, 
outras cor do sangue. Umas tem gosto ferroso e 
me dói mais na alma que no corpo.
Noutras é beijo de leite condensado. 
A transição da infância,
aquele contragosto engolido às escondidas, 
a dor dos outros deve ser tão minha...
Soraia M. Neves

E se..

                                   
                                            "Mas na verdade, será atroz o peso, e bela a leveza?" 
                                                        (A insustentável leveza do ser)

junho 19, 2015

Sub versiva


poesia
quando chega
_____Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
_____Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil  
 infringe o Código de Águas
_____ relincha
como puta
____ nova
____ em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
______nos olhos dos que ganham mal
______ embala no colo
______ os que tem sede de felicidade
______ e de justiça
E promete incendiar o país.


Ferreira Gullar


Personal Che



Che pode ser um santo, um revolucionário, um terrorista, uma vítima, um fashionista, um símbolo da pop art, top model, sex symbol, até mesmo ícone mercantilista pro capital moderno (arrepiem-se!)... por aí até onde o imaginário alcança. O tema não é quem o Che foi, ou sua história pessoal. Mas o o que ele se tornou no imaginário das pessoas, no 'consciente coletivo', e em suas representações simbólicas, bem reais... 


¨Personal Che é um documentário de 2007, dirigido por Douglas Duarte e Adriana Marino onde Diversas pessoas ao redor do mundo, reinterpretam a lenda Che Guevara. Do rebelde que vive em Hong Kong e luta contra o crescimento do país, ao neo-nazista da Alemanha que prega a revolução, passando pelo cubano que odeia Fidel Castro. Depoimentos que provam que o símbolo histórico do revolucionário argentino sobrevive até hoje. Mas como todo símbolo, cada um o percebe de uma forma, muitas vezes de maneiras bastante contraditórias. Muitos filmes tentaram revelar a verdade por trás do mito de Che Guevara. Este documentário, pelo contrário, tenta explorar o mito por trás da verdade¨.

Meu Che Guevara representado aqui com trans-traços.

junho 16, 2015

Slip.





Como o corpo é leve. Como libera a leveza que nele contêm.
 A mente sua extensão, o corpo seu recurso
Mil peças, mil moléculas moles, mil vezes dizendo...
Dizendo, dizem, dizem, sem falar. 
Dizer com movimento. Move on. 



Nymphaeum

William Adolphe Bouguereau - The Nymphaeum




''A vida é tão bonita
basta um beijo e a delicada engrenagem movimenta-se
uma necessidade cósmica nos protege''                                      
Adélia Prado

Hayv Kahraman, Hold Still, 2010.

TrancendentArt


 De Suzanne Valadon, La Chambre Bleue. 1923.


Pride

Raphael Perez


PÊSSEGO

Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em 
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê)
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
                                                                 E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

Manoel de Barros.

'Poemas Rupestres', Ed Record, 2004, RJ.






junho 10, 2015

Notas do Além

"A tradição islâmica proíbe tomar vinho na Terra, mas o Corão promete vinho incessante no Céu. O Corão, que condena o adultério na Terra, também promete belas virgens e gentis mancebos, disponíveis em quantidade, para o gozo eterno no Jardim das Delícias que aguarda os mortos virtuosos.

A tradição católica, amiga do vinho no Aquém, não oferece vinho no Além, onde os eleitos de Deus serão submetidos a uma dieta de leite e mel. E segundo o ditame do Papa João Paulo II, no Paraíso os homens e as mulheres estarão juntos, mas "serão como irmãos".
Por influência da vida ultraterrena, ou por outros motivos, há trezentos muçulmanos mais do que os católicos.

     O Turismo do Depois
  Enterros celestiais, preços terrenos. Por doze mil e quinhentos dólares, você pode ter seu túmulo no Vale do Silêncio: "descanse em paz. Na lua.", oferece a empresa norte-americana Celestis. Inc., que já tem três satélites funerários em órbita. Os foguetes levarão as cinzas dos clientes, partindo da base de Cabo Canaveral. Por um preço adicional de cinco mil e seiscentos dólares, a empresa Earthview oferece um vídeo de lançamento e garante o envio de um epitáfio digital a uma estrela que será batizada com o nome do finado(a).
  Estes foram os dois primeiros epitáfios enviados ao céu:
  "Que vista magnífica."
  "Meu espírito está livre para elevar-se"
 

O Aquém
Estimado senhor Futuro,
de minha maior consideração:

Escrevo-lhe esta carta para pedir-lhe um favor. V. Sa. haverá de desculpar o incômodo. Não, não se assuste, não é que eu queira conhecê-lo. V. Sa. há de ser um senhor muito ocupado, nem imagino quanta gente pretenderá ter este gosto; mas eu não. Quando uma cigana me toma a  mão, saio em disparada antes que ela possa cometer essa crueldade.

E no entanto, misterioso senhor, V. Sa é a promessa que nossos passos perseguem, querendo sentido e destino. E é este mundo, este mundo e não outro mundo, o lugar onde V. Sa nos espera. A mim e aos muitos que não cremos em deuses que prometeram outras vidas nos longínquos hotéis do Além.
 Aí está o problema senhor Futuro. Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam como se fosse uma pelota. Brincam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes os espremem, como se fosse um limão. A continuar assim, temo eu, mais cedo do que tarde, o mundo poderá  ser tão-só uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem água, sem ar, e sem alma. 

É disso que se trata, senhor Futuro. Eu peço, nós pedimos, que não se deixe despejar. Para estar, para ser,
necessitamos que V. Sa. siga estando, que V. Sa. siga sendo. Que V. Sa. nos ajude a defender sua casa, que é a casa do Tempo. Faça por nós esse favor. Por nós e pelos outros: os outros que virão depois, se tivermos um depois.

Saúda V. Sa. atentamente,
Um terrestre."



Feliz reencontro com um livro perdido e recém-achado, O Teatro do Bem e do Mal, 2001, de Eduardo Galeano, na limpeza dos livros da prateleira. Fazer faxina, tem suas recompensas, agora eu descubro... O que não descubro, nem me escapa de perguntar é: Quem nos 'salva' de nós mesmos?
Imagem Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch. 

maio 19, 2015

Caminhando


"Enquanto quase todos os homens sentem uma grande atração pela sociedade, são poucos os que tem uma inclinação forte pela Natureza. No que toca à sua reação perante à Natureza, a maior parte dos homens me parece inferior aos animais - Independentemente de sua arte ou habilidade. Não é frequente uma relação bonita entre homem e Natureza, tal como se dá com os animais. É impressionantemente pequena entre os homens a fruição da beleza de uma paisagem! É preciso que nos digam que os gregos chamavam o mundo de Beleza, ou Ordem ( kosmos- Koouos), e nem mesmo assim vemos com clareza motivo para isso: no melhor dos casos, consideramos um fato filológico.


De minha parte, sinto que levo um tipo de vida fronteiriça em relação ä Natureza: moro nos limites de um mundo no qual faço apenas incursões ocasionais, e efêmeras e sinto que meu patriotismo e minha lealdade em relação ao Estado em cujo território pareço residir, são tão  profundos quanto um bandoleiro. Se fosse para chegar a um tipo de vida que considero natural, seguiria com prazer até mesmo um fogo-fátuo através de lamaçais e charcos inimagináveis; mas até hoje não houve estrela ou vagalume que me mostrasse o caminho até lá. A Natureza é uma personalidade tão vasta e universal que nunca esgotamos um de seus fragmentos.''

Caminhando, pàg 140. - Henry David Thoreau.      

maio 17, 2015

Boudicca


Há muito que me interesso especialmente pelas mulheres guerreiras na História. Na cultura anglo-saxã as Valquírias, as amazonas Asgarda, muitos ícones Odinistas. Faço aqui uma breve homenagem àquela que considero pouco lembrada, e quando lembrada, ainda marginalizada pelo olhar patriarcal da época. Boudicca ou Boadicea , a vitoriosa, em gaélico. Ou rainha vermelha, certamente por ser ruiva. Por todas as descrições, me parece ser uma mulher independente, decidida, de opiniões consistentes, o que lhe intensificava o olhar. Gosto de pensar que foi uma justiceira entre as mulheres. Não aquela que queria se igualar aos homens, já que são diferentes, mas lutar como uma mulher luraria na época. Diferente de Joana D'arc por exemplo. 
Sua história parece tão misteriosa quanto lendária. Houveram migrações da tribo bretã até a costa da Grã-Bretanha, onde se instalaram, os celtas bretões, ali chamados de Icenos. Vejo que já existem livros, e até um filme...
"Boudicca era alta, terrível de olhar e abençoada com uma voz poderosa. Uma cascata de cabelos vermelhos alcançava seus joelhos; usava uma colar dourado composto de ornamentos, uma veste multicolorida e sobre esta um casaco grosso preso por um broche. Carregava uma lança comprida para assustar todos os que deitassem-lhes os olhos" ... (Dião Cássio in História Romana).

Noutra fonte, diz-se sobre como o olhar masculino contava a sua história;

"Os escritores da Antiguidade, que escreveram sobre ela, tinham como função contar aos romanos, através de suas narrativas, os grandes do Império. Eles faziam parte de uma sociedade que era desacostumada a ver uma mulher como governante, e muito menos como comandante de um exército. Dessa forma, Boudicca foi descrita por eles como uma mulher masculinizada, que tinha o tamanho, a voz e as armas de um homem, além da ineficácia de sua liderança" (Bélo, 2011, p. 46)

E  suas inerentes contradições; "As mulheres celtas, não eram somente semelhantes aos homens em estatura, mas equivalentes a eles, no que diz respeito à coragem, técnicas de guerra e o desejo de vingança". 





maio 14, 2015

Baraka


"Baraka é um documentário que parte de uma antiga palavra com significados em várias línguas. Pode ser traduzida como benção, sopro ou essência da vida, de onde se desencadeia o processo da evolução do mundo. O filme revela o quanto a humanidade está interligada, apesar das diferenças de religião, cultura e língua dos povos.

Um verdadeiro poema visual sem narração ou legenda, somente imagens e sons cuidadosamente capturados e articulados através de uma montagem expressiva, o que faz com que cada tomada adicione à próxima outro significado, cujo tema é... Afinal, do se trata Baraka? Acredito que cada espectador do filme veja um tema diferente. Ele pode ser sobre a força do planeta Terra. Pode ser sobre as múltiplas diversidades que nos unem. Ou muitas outras coisas.

Baraka é uma reprodução visual da ligação humana com a Terra."

abril 12, 2015

Cuide de você

Esses dias, tive a lembrança de uma exposição de que gostei muito de ver, e não resisti a dividir. Quem se lembra de Sophie Calle - Cuide de Você, no MAM Solar do Unhão ?
Ela que levou um fora por email, pegou a carta e resolveu fazer com isso uma extraordinária exposição de arte.

A carta em si é secundária, assim como seu conteúdo, descobri depois o que chama a atenção, é como você se coloca, se sente, é o exercício de alteridade mais bonito que já vi fazerem em trabalhos na arte. Uma atriz a interpreta, uma juíza, uma bailarina, uma palhaça, jogadora de xadrez, léxica gramatical, estrategista, esgrimista, fuzileira naval, uma adolescente, uma ave cacatua... rs. Tantas e tantas mulheres.
Todas representações de si mesmas, representações de outras, partes nossas ou delas mesmas? Somos uma só?

Simbolismos. Retratos. Sentimentos. Expressões..                    
Ela nos dá o que pensar.
Depois li, pesquisei outros trabalhos dela, sempre polêmicos. Dormir em camas alheias, seguir pessoas, guardar uma agenda-carteira e tentar contatos.

Mas esta Cuide de Você é sem dúvida a que mais me toca, fez pensar e curtir a visita, porque a gente se coloca pouco na vida do outro, não arrisca se transferir, vestir uma pele vizinha, tentar encarnar uma emoção externa. Impressiona é que pode não ser externo, quando se vê nela.
O espelhamento no outro, essa duplicidade íntima,
cúmplice..


¨Cuide de você¨, de nós.





Olhem meu corpo


"Olhem o meu corpo e pensem:
Quantos espaços alcançam meus braços?
Quantos metros andam minhas pernas?
Talvez aí estejam meus limites.
Talvez aí estejam minhas finitudes.
Bem se falam em altitudes e latitudes.
Estes chegares da ciência e do avanço.
Eu estou no lugar que posso.
Eu estou no lugar que alcanço."
Ulisses Tavares.

março 29, 2015

Mudança de tempo

Mudou o tempo    
o verde balança
as folhas caem na dança
A aurora descansa
O frio chega tímido
O sol deixa saudades
As roupas abandonam o armário
o abraço fica mais apertado
o chá não é mais gelado
a tv fica mais vistosa
a pipoca mais saborosa
outras vidas serão geradas
o Outono chegou
Já é tempo de amar.

-Mery Speck Thiesen


março 19, 2015

Alucinação Graffitis

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
ou oba oba, ou melodia
Pra acompanhar meus bocejos
Sonhos matinais

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem essas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia a dia
E meu delírio
É a experiência com coisas reais

Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinza normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas
dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
que canta e requebra
é demais!

Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais.

Alucinação - Belchior  

março 17, 2015

...Madalena


Maria,

...da Penha
... Madalena
...Mascarenhas
.. Miltons
...Lamas
... Simone
... Safo
...FEMEN
...Maria Lacerda de Moura
...Marias...


março 16, 2015

Março mês da Mulher.

 Recentemente foi dia da mulher. Não todo dia, como deveria ser, mas "o" dia para lembrá-la e receber as flores, antes e depois das agressões dos demais dias. E há poucos dias, foram as manifestações com cartazes misóginos à Dilma, procurando-os se encontram inúmeros, praticamente iguais no ódio e no ódio (mal) velado à brasileira, a chacota o escárnio.  

O que está por detrás do ódio à legitimidade de uma governante democraticamente eleita, é o machismo- sim, ele de novo, mola propulsora de outras diversas violências, misoginia, orgulho conservador ferido, recalques coletivos nos níveis cada vez mais intensos...  
O STJ deu vitória à Luciana Genro, e as declarações homofóbicas e misóginas de Levy Fidelix serão punidas com programas LGBTs, assistências, e multa histórica de um milhão de reais. No dia 9, Dilma sanciona a lei que trata o feminicídio como crime hediondo. Faz parte da política tolerância zero contra os maus tratos e violência à mulher brasileira -  mas a vitória tem gosto amargo; mulheres trans são excluídas da legislação. E a  homofobia ainda não é crime. Porques...
Não é só ódio sexista, racista, que gritam as pessoas nas ruas, em cartazes, em estádios de futebol, e em horário nobre político; é a manifestação reacionária aos valores de igualdade, respeito, e liberdade que o pensamento liberal e progressista trazem consigo, que enraivecem os conservadores de sempre.


A falta de pudor em expressar o ódio toma adeptos em milhares, e não são mais anônimos que o proclamam aos berros, é o seu vizinho/a, cunhado/a, amigo/a, parentes,... O cidadão "de bem".
O sujeito de bem, de mãos dadas com o militarismo, o conservadorismo, a religião xiita e xenófoba, e principalmente a vontade de poder já descrita por Adler, e por Nietzsche. Unidos contra a democracia. Demoniocracia Tupiniquim, vulgo Brasil.
Bom senso, moderação, tato, senso crítico se afastam à medida que se cresce o extremismo político, o ódio do cidadão de bem. O cidadão de bem grita, fere, empunha bandeiras, inflama seu ódio e estufa o peito para humilhar em nome da dita liberdade de expressão. Se usa dessa pretensa "liberdade" até para matar simbolicamente o outro, que não é Outro, sequer sujeito, ou indivíduo, e sim adversário e inimigo. Anular ou aniquilar sua presença, sua existência incômoda. 

A multidão que se vê nas ruas no mês da mulher, - como dia do índio, negro, que não sejam datas ''folclóricas'' e sim de debates atuais- é massa disforme e coesa somente em sua violência direta contra o diferente. Sendo o diferente tudo aquilo que desagrada a uma moralidade tosquiada que remonta o obscurantismo de outrora, à idade das trevas. 
Este cidadão de bem que veste a camisa do Brasil, orgulhoso de sua raiva, é bem parecido com o cidadão nazista que exigia a eugenia, a limpeza étnica, querendo eliminar tudo o que sujava a nação nazi-fascista.
Aqueles que tem críticas e argumentos contrárias ao governo petista, ou à própria governante, neste momento de agressões verbais e virtuais, pouco podem expressá-las, com o risco de cair em meio aos gritos e vociferações dos irracionais. E há tanto a dizer, os que esperavam um governo mais à esquerda se deparam com uma legenda PT mais ao gosto dos tucanos, com nomeações de cargos distantes da origem petista e agrados à bancada evangélica. Aliás "esquerda" e "direita" estão cada vez mais próximos, a tal ponto que ambos se misturam, se confundem, guerreiam e em seguida se dão as mãos em objetivos cada vez mais distantes da ética...
Interessante é que há jornalistas independentes fazendo cobertura ao vivo, e com resultado bem diferente da Globeleza; a mídia Ninja e Jornalistas Livres, além de muitos outros, artistas, pensadores, críticos, -em regimes totalitários, não são esses os primeiros a serem perseguidos, presos e exilados?- como Marcelo Rubens Paiva, Laerte, Eliane Brum, Sakamoto, nos dão um enredo bem diverso da mídia oficial.

Eu não tenho dúvidas de que vivemos um momento histórico atualmente (desde Feliciano e a CDH- ou pouco antes), em que forças conservadoras reagem cruelmente contra as liberdades humanas e individuais. E que não há mais espaço ou tempo pra indecisões a ficar em cima do muro, é preciso se informar das manipulações, simplificações grosseiras, e se posicionar no que se acredita. Se posicionar politicamente dentro e fora das mídias e redes sociais, dizer claro e direto o que se pensa, tomar partido não a uma sigla, mas participar das decisões do país. É pra ontem tirar esse capuz da timidez e assumir ser participante, questionador(a), ideologicamente ativo(a).

Infecção Br

O PT é só o bode expiatório da vez. Contra a corrupção sim, mas é sempre. Noutro momento, digo que sinto falta das manifestações de junho/julho de 2013, mas não me refiro à uma parte conservadora que direciona as manifestações de agora pra expulsar o PT e louvar...a quem? Aécio Neves envolvido até os cabelos no esquema do Lava-Jato. A direita se ressente até hoje por ter perdido, e ressequida de poder, manipula mídia e pessoas. Hipocrisia é que muitas são as pessoas que votaram no Aécio. Outras no PT, e agora... "fora PT" com selfies e cerveja na mão. A passeata Omo Progress seria risível se não fosse tão preocupante.
Dois dias antes, no dia 13, a avenida estava toda de vermelho...
Me pergunto porque não tiveram culhões na época pra votar em Luciana Genro. Em quem se expõe, e expõe o que pensa sobre homofobia, corrupção e demais hipocrisias...
Luciana, Jean Wyllys, e noutros tempos; Benedita da Silva, Heloísa Helena, Luíza Erundina... Essas pessoas não estão estampando escândalos de corrupção e por isso não são lembradas, ou faladas. Quem não se envolve nos 'esquemas' e politicagens, sem fazer política, sem perder seu idealismo não se encaixa, porque também não se sujeita. Nem sei que tipo de protesto fazer hoje em dia sem cair numa corrente conservadora, ultradireitista, e sempre contrária.Sem se misturar e se perder os propósitos.
Tá difícil não cair no banal ou em fúrias coletivas, massas sem crítica. Ah, Brazil...


leitura Menos ódio e mais Democracia Ilustra de Laerte



fevereiro 09, 2015

Bollingen

Face anterior da pedra de Bollingen, esculpida por C. G. Jung. A pequena figura no centro é a pupila (você mesmo) que você vê no olho de outra pessoa. A inscrição grega, traduzida por Jung, diz o seguinte: "O tempo é uma criança - brincando como uma criança -brincando sobre um tabuleiro de xadrez - o reino da criança. É Telésforo, que erra pelas regiões sombrias do cosmos e brilha como uma estrela elevando-se das profundezas. Ela indica o caminho para suas portas do sol e para a terra dos sonhos". 
(Memories, Dreams, Reflections, p.227) 

fevereiro 05, 2015

Misoginia/Misandria - a Repulsa ao Sexo (oposto)

Quando era adolescente, pensei sobre os rapazes gays o seguinte: bem, agora eles não vão lutar, guerrear entre si, podem até  se permitir mostrar carinho ao outro, mostrar sentimentos - deixar a brutalidade de lado pela imperiosidade dos afetos. 
Mais tarde, e com mais idade, eu percebo os traços de misoginia. A eles - os gays, mas também à homens que divergem da regra- lhes é empurrado o sexo feminino como uma obrigação. Na infância, como primeira demonstração de visibilidade, junto com as lutas; na adolescência, para reafirmar-se a si mesmos, e, aos grupos, transparecer seus gostos e formação da identidade; idade adulta é a consolidação do caráter sexual e afetivo. Se a cultura dessa sociedade "empurra" o gênero feminino como única saída para a ¨vergonha¨ moral de ter seus afetos na direção de outro homem, fatalmente a misoginia aparecerá mais cedo ou mais tarde. E mais, a não-participação nos jogos sociais compartilhados pela configuração  máscula e viril, às piadas, o futebol ou esporte dominante, a roda de amigos homens, o clube masculino hermético, com suas regras restritas e restritas também aos mesmos. O clube masculino que introjeta as regras da macro- sociedade machista; tão logo apreende a odiar as mulheres.

A misoginia é um longo caminho, de anos de formação, que vem anterior ao berço - uma cultura já arraigada de seus símbolos, regras, violências adquiridas e legisladas, dadas como corretas.
Então já consolidadas como normativas. ''Não há o que discutir, é assim há décadas...'' por aí vai.
O questionamento do por que é assim, e os modos de fazer diferente, é o que constitui a pluralidade de gêneros, como de identidades de gênero.

Nas lésbicas, não somente a orientação sexual das mulheres, como na orientação social em geral, é pautada pelo modelo patriarcal de ensino e aprendizado. As mudanças de comportamento posto ao que delas se esperam, também é de muito cedo. Exigências de como se portar, vestir, das "boas" maneiras que temos de nos comportar, e tal modo tecem o fio condutor de um projeto para a pessoa, e o que gostariam que ela se tornasse.  O incentivo versus repressão vem de modo sutil, mas incisivo, às vezes até como algo banal: "sente de perna fechada", "você não prefere usar cor x à essa?", "ninguém vai gostar de você se fizer assim", "as pessoas preferem meninas que se comportam como fulana (alguém insosso e irrepreensível)", ou a variante " meninas não se comportam desse jeito, você já é quase uma moça!", "você está magoando seus pais, família", etc.
São comandos simples e claros, pra a criança se orientar no que o mundo adulto considera correto ou condenável. É uma padronização com pouca variância, e com o propósito de manter linha dura, para o gênero feminino estar bem dentro do cerco, do cercado, das rédeas, do cabresto social machista. E que devem se configurar como opostas às masculinas; a doçura, a delicadeza, a submissão, a fragilidade, em maior ou menor grau de incentivo, é o que a micro sociedade (termo macro ou micro sociedade é tirado da teoria familiar sistêmica, que a utiliza) - a família incentiva.

Portanto, dei algumas voltas necessárias, pra falar que o ódio ao gênero além de ser aprendido, primeiramente pelo núcleo familiar, em que este apreende da cultura vigente, e compartilhada socialmente, ao passo que cresce em escala global de influências, externas e internas.
Ódio ao gênero não é específico à determinada pessoa, e/ou grupo, mas é antes um ressentimento contra uma cultura determinante de padrões normativos e doentios, que atropelam um desenvolvimento natural da pessoa - seja que gênero for.

Esse ressentimento é uma semente que cresce à medida que se colocam os "nãos" sociais ao indivíduo em formação. As barreiras cada vez mais difíceis, mais intransponíveis à realização pessoal, afetiva e sexual do sujeito. O ódio ao gênero é como um rechaço às atribuições de qualidades que se 'deve' ou 'deveria' ter, em oposição àquelas que realmente temos, sentimos, e somos.

A maneira como é retratada a misoginia (ou mais raramente a misandria, pois é menos visível e realmente mais rara, já que a sociedade é predominantemente machista e patriarcal, logo, misandria é minoria, também), nos filmes, nos livros, nos documentos históricos, nos quadrinhos de época, games, música, e em redutos de prevalência masculina, ou é de escárnio, de violência pura e gratuita, ou ambas. E reforçam a ideia, demonstram o grau de ressentimento transformado em ódio, tanto individual quanto cultural.

É uma revolta que repudia, mas distorcida, sobre a cultura machista. Ou seja, é ainda uma maneira infantilizada e violenta de lidar com todos os ''nãos" anteriores, toda a dominação sobre os papéis de gênero e sexuais das pessoas.

Tanto é, que quando desejamos reformas e mudanças na cultura, e práticas de uma sociedade, recorremos à passeatas e manifestações públicas na rua, envolvendo a todos e chamando a todos a atenção para mudanças, plebiscitos, constituintes,... Uma mentalidade moralista e conservadora não se perpetua da noite pra o dia, é preciso séculos de gerações inteiras pra construí-las. É preciso pra combate-las, igualmente, séculos de resistência na educação, na educação aos filhos, na educação à uma cultura como um todo. E uma cultura menos sexista, é cultura de paz e alteridade. É preciso debater sempre que possível, é preciso não perder a chance de se expor, numa roda com amigos, de outros modos; numa sala de aula, de outras formas; de quebrar a herança cultural de dominações de gêneros, de sexualidades, de identidades.
É filosofia de vida para posteridade, com ganhos igualmente a toda uma população. Velhos conceitos, e velhas guerras são inúteis e desgastadas. Um olhar e sentir íntegro constitui essa unificação possível. 
Uma Psicologia realmente engajada com o indivíduo e a sociedade, é a psicologia comprometida com essas reformas sociais que por extensão, é o nosso bem comum.