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janeiro 20, 2015

Cine Magic ♋


Assisti a essas três filmes recentemente. Os três, por mais que tenham o conteúdo relacionado à magia, podem ser vistos, sem problemas por qualquer um que se interesse por cinema de qualidade, é cinema de arte acessível e bem feito. Não sei se consigo passar aqui o quanto são importantes esses filmes, ou se a minha descrição está à altura (não mesmo!Pois por mais que eu diga e escreva, o olhar e encontro com as histórias é pessoal). Mas acho que devo passar adiante o que me cativa e instrui. Esses filmes podem ser baixados, ou estão disponíveis na Vintage Vídeos, na Barra Salvador. 
São produções de lugares diferentes, Austrália, México e Irlanda, mas o que os regem são as relações humanas , os mitos e o poder regenerador da Natureza sobre os personagens.

A Árvore (The Tree), filme australiano, com paisagens abertas, cenário natural belíssimo, tem Charlotte Gainsbourg  -filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, dois que já ouvia e via antes, é atriz escandalosamente sensível nas atuações. Além dela, as crianças nos três filmes, dão o tom de  acrescentar a simplicidade. Em todos há crianças, e em todas elas somam delicadeza e profundidade em relação ao olhar desesperançado e existencial comparado ao dos adultos. 
A Árvore é um filme sobre perdas, sobre a elaboração de luto por um lado, mas também de como é transitória e fluida essas passagens. As árvores são sagradas para os celtas, o ciclo da vida-morte-vida, suas raízes, a passagens das estações e diversas simbologias se enredam. A Árvore da história, é onde o espírito de um familiar encontra abrigo. E a relação com a casa, com as ausências, e  a importância com seu lugar de origem.

A Curandeira (Abençoa me Ultima), foi o primeiro que vi, é mexicano, e há uma família maior também. As perdas são na verdade partidas e chegadas. Pessoas que trazem consigo acolhimento, ensinamentos e sabedoria - Ultima é a senhora curandeira, que chega a um vilarejo mexicano próximo aos EUA, e o garoto caçula, imediatamente sente a ligação entre eles. Os afetos dão lugar aos ensinamentos, e a vivência do que é natural e mágico. O uso das plantas, o uso das palavras, os feitiços e o conhecimento de La Grande, como é chamada, provocam mudanças no garoto. Algumas pessoas entendem o poder de La Grande, que os assusta e confunde, assim como o que isso ameaça no controle da Igreja local, e da Terra dos Homens. A mentalidade retrógrada e machista é uma particularidade, mas pano de fundo. As mulheres tem sempre que ser questionadas, e se tenta minimizá-las e destituir sua sabedoria e feitos, mesmo com isso, o que é feito de amor e dedicação prevalece. A força advinda delas é tão visível, que impulsiona as mudanças no filme...  Em particular, este me faz lembrar das relações entre avós e netos - e em mim mesma com meus avós-, é esse entendimento que acontece também ali.   

Por último, e não menos importante, o filme irlandês A Lenda da Vida (The Secret of Roan Inish), fiquei impressionada! Até as casinhas eles fizeram igualzinho como vejo nos livros de magia celta, e tem partes do filme sobre isso, já que as focas como os humanos estão à procura de sua 'pele verdadeira'. 
Eu ia falar apenas sobre as impressões que tive desse filme e só. Mas enquanto estive viajando, levei o livro de Clarissa Pinkola Estés comigo, e um dos muitos contos que lemos, diz respeito à uma lenda da costa irlandesa peculiar, e que a cantadora, isto é, contadora de histórias Clarissa, descreveu em capítulo de seu livro, A Volta ao Lar: o retorno ao próprio self.

janeiro 19, 2015

morte do humor

Por Bruno Aziz. Devolve o sorriso de volta... =)

Latuff e a Liberdade

Só fui ler das manchetes do Charlie Hebdo quase dez dias depois. Acho que fiz bem, ânimos exaltados e rapidez pra tomar partido não ajudam a pensar. Depois que li, de momento fiquei pensando no Latuff cartunista e militante brasileiro que já pus aqui algumas vezes, e que admiro. Favorável à Palestina, condenou o atentado, mas se mostra contra a linha editorial da revista em questão. Bom, fiquei com essa charge e as idéias dele pensativa. É tudo liberdade de expressão? Humor, piada ? Talvez os brasileiros em geral estejam mais familiarizados com o humor e não tanto com a sátira social, que exige mais, que fulmina mais também. Há quem veja e ache grosseria, outros vão rir, o que determina então? Em outros tempos charges sobre a escravidão no tempo das colônias era normal, e hoje,  a piada  homofóbica parece estar tão naturalizada nas ruas... Mas aí ninguém se arisca a ser politicamente incorreto. Depende portanto de quem é o alvo das tiras. Você está do lado de fora ou de dentro da tira..? Todo mundo tem seu calcanhar de aquiles, todos. Se mexer com sua crença, não-crença, valores, seus sentimentos, então será o vespeiro. Tão rápida e fulminante vão ser as retaliações em retorno. Não será humor , e sim ofensa.
Acho que o que dá limites, é sempre o bom senso. Isso não seria restringir liberdades alheias. Leveza demais banaliza, vulgariza. Mas o humor é válido, e muito. Pode ser aliado revolucionário sim. Mais poderoso que as mortes? Uma charge, um desenho, um texto inteligente, instigante. O Peso poderia ser o da crítica social, da sátira. Mas o que faz uma charge ser inteligente, versus grosseira,  é o bom senso mesmo. Lembrei da frase de epitáfio que o Chico Anysio disse com humor " E agora, vão rir de quê?"
Fico na reflexão do Latuff, mesmo que seja pra me auto-incomodar.


É para rir, mas pode matar

Pensamentos escritos, o caminhar e os caminhos

Caminhava lenta, meditativa aquela estrada, uma trilha que desemboca num rio-lago, largo, imenso a perder de vista. É bonito esse caminhar. É andar limpa e silenciosa. Pra de repente e sem aviso, se levanta os olhos e vê: tudo de uma vez só. a revoada dos pássaros em barulho feliz, a montanha mágica e gigante, pra onde se destinam os caminhos. 
As folhas como tapetes ao lado da trilha. 
Os animais se movimentam em silêncio, não fazem alarde, não querem ser vistos, descobertos. 
Por que não caminhamos assim, observadores do todo? 

Porque me vem esses anseios grandes e sem avisos na boca do estômago...
E mais, porque fico pensando que já andei por ali ?
Queria que os segredos saíssem detrás das folhagens, e também se revelassem pra mim.

A razão não acompanha. Tenho raiva por isso, depois um pouco de tristeza, como é depois do orgasmo, tenho orgasmos na natureza, e nem tudo é carnal sexo, adoro o carinho verde da floresta que deixo pra trás caminhando, adoro nadar nua e a água gelada no corpo, é carinho. Nem tudo, o corpo entende, eu nem sempre. Por fim um cansaço me vence. Me vence? Não.
Eu aprendi a ter paciência, como as reservas energéticas que o corpo dispõe, e portanto aguardo.
E que ninguém se engane sobre mim. Sou o Peso. Não o peso da consciência, mas esta também é inclusa.
Mas o contraponto da Leveza (essa que todos gostam). Porém se é demais, é tão leve que desintegra.
Átomos  dispersos demais; é fútil, banal, desimportante.
A Leveza me serve  apenas como dosagem pra balancear o que é do Peso. Não é uma questão de escolha voluntária.

O Peso: a densidade, o conteúdo, o volume, a profundidade - da alma, do anseio, do sentir, do emocionar-se. O Peso é o falar-pensar sério, e quanto mais sério, maior o peso.
É nas palavras que se está escondido os sentidos, se as tem, desvenda-as, se não as tem inventamo-las. Porque é assim não sei, sei que é. Nosso código da linguagem. O descobrimento. O encantamento.
Daí o termo "consciência pesada", não é o senso comum, que diz ter feito algo errado, algo de enganoso ao termo.
Aqui quero devolver o sentido anterior, original e inerente. O Peso é aquele de sentir e pensar sobre as coisas do mundo - o real e o mágico- e a insistência em pensar, sentir, intuir, demasiadamente.
Demasiado é o sentir, então demasiado é o Peso.
Cuidado aí, porque o peso se se torna demasiado, então enverga, sucumbe e esmaga.
Como medir? Não sei. Palavras que mais gosto.
Quanto mais sei menos sei. Não fui eu quem disse isso, como sabem, mas cabe aqui, então sim.
Doce silogismo.
E sabendo que cada vez mais saberei menos. No meu último suspiro, então saberei menos que nada,
abaixo de.
Aí a Leveza. Danada e certeira. Não queria, mas aí está.
Essas coisas vem sem avisar, sem pensar em coisa nenhuma. É antídoto mental e corporal que inalamos pra domar as medidas Peso-Leveza.  Sutil esse dançar...
Nem todos conseguem, eu tampouco.
Clarice conseguiu. Dançando nas palavras, nas sinfonias de sílabas, a composição de renda, de costurar majestosa.. o tecido primoroso de um texto.
Esses pensamentos escritos dizem respeito não só ao caminhar e aos caminhos, mas a ter sabedoria de ouvir os próprios anseios, de escutar esses desejos, e coragem- independende do julgamento de uma cultura- pra levá-los adiante. O Peso e a Leveza no meu ver, são atitudes e sentires, que ocorrem no tempo particular de cada um, que permeiam o comportamento e a vida psíquica natural.

Se você, como eu, e outros, sente esses anseios às vezes; e tem uma vertigem caminhando, ou fazendo algo corriqueiro.... Fique atento, responde às tuas demandas de dentro.
Talvez seja desejo de saber algo mais. De entender inexoravelmente, insistência em sentir algum cheiro oculto, algo guardado, segredado a si mesmo, ouvir esses anseios...
Pra mim, serve-me a companhia dela, toda Lispector, leve-dura-pesada- como pluma, molécula que diz sim penosamente.
Ou caminhar, parando, meditanto. Fecha os olhos, olha pra dentro: é tão vasto como é fora.


Milan Kundera ainda é vivo e ativo. Além de ter lançado o fenômeno A Insustentável Leveza do Ser, ele também é autor de mais de dez livros, entre ele o recente A Festa da Insignificância