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janeiro 19, 2015

Pensamentos escritos, o caminhar e os caminhos

Caminhava lenta, meditativa aquela estrada, uma trilha que desemboca num rio-lago, largo, imenso a perder de vista. É bonito esse caminhar. É andar limpa e silenciosa. Pra de repente e sem aviso, se levanta os olhos e vê: tudo de uma vez só. a revoada dos pássaros em barulho feliz, a montanha mágica e gigante, pra onde se destinam os caminhos. 
As folhas como tapetes ao lado da trilha. 
Os animais se movimentam em silêncio, não fazem alarde, não querem ser vistos, descobertos. 
Por que não caminhamos assim, observadores do todo? 

Porque me vem esses anseios grandes e sem avisos na boca do estômago...
E mais, porque fico pensando que já andei por ali ?
Queria que os segredos saíssem detrás das folhagens, e também se revelassem pra mim.

A razão não acompanha. Tenho raiva por isso, depois um pouco de tristeza, como é depois do orgasmo, tenho orgasmos na natureza, e nem tudo é carnal sexo, adoro o carinho verde da floresta que deixo pra trás caminhando, adoro nadar nua e a água gelada no corpo, é carinho. Nem tudo, o corpo entende, eu nem sempre. Por fim um cansaço me vence. Me vence? Não.
Eu aprendi a ter paciência, como as reservas energéticas que o corpo dispõe, e portanto aguardo.
E que ninguém se engane sobre mim. Sou o Peso. Não o peso da consciência, mas esta também é inclusa.
Mas o contraponto da Leveza (essa que todos gostam). Porém se é demais, é tão leve que desintegra.
Átomos  dispersos demais; é fútil, banal, desimportante.
A Leveza me serve  apenas como dosagem pra balancear o que é do Peso. Não é uma questão de escolha voluntária.

O Peso: a densidade, o conteúdo, o volume, a profundidade - da alma, do anseio, do sentir, do emocionar-se. O Peso é o falar-pensar sério, e quanto mais sério, maior o peso.
É nas palavras que se está escondido os sentidos, se as tem, desvenda-as, se não as tem inventamo-las. Porque é assim não sei, sei que é. Nosso código da linguagem. O descobrimento. O encantamento.
Daí o termo "consciência pesada", não é o senso comum, que diz ter feito algo errado, algo de enganoso ao termo.
Aqui quero devolver o sentido anterior, original e inerente. O Peso é aquele de sentir e pensar sobre as coisas do mundo - o real e o mágico- e a insistência em pensar, sentir, intuir, demasiadamente.
Demasiado é o sentir, então demasiado é o Peso.
Cuidado aí, porque o peso se se torna demasiado, então enverga, sucumbe e esmaga.
Como medir? Não sei. Palavras que mais gosto.
Quanto mais sei menos sei. Não fui eu quem disse isso, como sabem, mas cabe aqui, então sim.
Doce silogismo.
E sabendo que cada vez mais saberei menos. No meu último suspiro, então saberei menos que nada,
abaixo de.
Aí a Leveza. Danada e certeira. Não queria, mas aí está.
Essas coisas vem sem avisar, sem pensar em coisa nenhuma. É antídoto mental e corporal que inalamos pra domar as medidas Peso-Leveza.  Sutil esse dançar...
Nem todos conseguem, eu tampouco.
Clarice conseguiu. Dançando nas palavras, nas sinfonias de sílabas, a composição de renda, de costurar majestosa.. o tecido primoroso de um texto.
Esses pensamentos escritos dizem respeito não só ao caminhar e aos caminhos, mas a ter sabedoria de ouvir os próprios anseios, de escutar esses desejos, e coragem- independende do julgamento de uma cultura- pra levá-los adiante. O Peso e a Leveza no meu ver, são atitudes e sentires, que ocorrem no tempo particular de cada um, que permeiam o comportamento e a vida psíquica natural.

Se você, como eu, e outros, sente esses anseios às vezes; e tem uma vertigem caminhando, ou fazendo algo corriqueiro.... Fique atento, responde às tuas demandas de dentro.
Talvez seja desejo de saber algo mais. De entender inexoravelmente, insistência em sentir algum cheiro oculto, algo guardado, segredado a si mesmo, ouvir esses anseios...
Pra mim, serve-me a companhia dela, toda Lispector, leve-dura-pesada- como pluma, molécula que diz sim penosamente.
Ou caminhar, parando, meditanto. Fecha os olhos, olha pra dentro: é tão vasto como é fora.


Milan Kundera ainda é vivo e ativo. Além de ter lançado o fenômeno A Insustentável Leveza do Ser, ele também é autor de mais de dez livros, entre ele o recente A Festa da Insignificância

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