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fevereiro 05, 2015

Misoginia/Misandria - a Repulsa ao Sexo (oposto)

Quando era adolescente, pensei sobre os rapazes gays o seguinte: bem, agora eles não vão lutar, guerrear entre si, podem até  se permitir mostrar carinho ao outro, mostrar sentimentos - deixar a brutalidade de lado pela imperiosidade dos afetos. 
Mais tarde, e com mais idade, eu percebo os traços de misoginia. A eles - os gays, mas também à homens que divergem da regra- lhes é empurrado o sexo feminino como uma obrigação. Na infância, como primeira demonstração de visibilidade, junto com as lutas; na adolescência, para reafirmar-se a si mesmos, e, aos grupos, transparecer seus gostos e formação da identidade; idade adulta é a consolidação do caráter sexual e afetivo. Se a cultura dessa sociedade "empurra" o gênero feminino como única saída para a ¨vergonha¨ moral de ter seus afetos na direção de outro homem, fatalmente a misoginia aparecerá mais cedo ou mais tarde. E mais, a não-participação nos jogos sociais compartilhados pela configuração  máscula e viril, às piadas, o futebol ou esporte dominante, a roda de amigos homens, o clube masculino hermético, com suas regras restritas e restritas também aos mesmos. O clube masculino que introjeta as regras da macro- sociedade machista; tão logo apreende a odiar as mulheres.

A misoginia é um longo caminho, de anos de formação, que vem anterior ao berço - uma cultura já arraigada de seus símbolos, regras, violências adquiridas e legisladas, dadas como corretas.
Então já consolidadas como normativas. ''Não há o que discutir, é assim há décadas...'' por aí vai.
O questionamento do por que é assim, e os modos de fazer diferente, é o que constitui a pluralidade de gêneros, como de identidades de gênero.

Nas lésbicas, não somente a orientação sexual das mulheres, como na orientação social em geral, é pautada pelo modelo patriarcal de ensino e aprendizado. As mudanças de comportamento posto ao que delas se esperam, também é de muito cedo. Exigências de como se portar, vestir, das "boas" maneiras que temos de nos comportar, e tal modo tecem o fio condutor de um projeto para a pessoa, e o que gostariam que ela se tornasse.  O incentivo versus repressão vem de modo sutil, mas incisivo, às vezes até como algo banal: "sente de perna fechada", "você não prefere usar cor x à essa?", "ninguém vai gostar de você se fizer assim", "as pessoas preferem meninas que se comportam como fulana (alguém insosso e irrepreensível)", ou a variante " meninas não se comportam desse jeito, você já é quase uma moça!", "você está magoando seus pais, família", etc.
São comandos simples e claros, pra a criança se orientar no que o mundo adulto considera correto ou condenável. É uma padronização com pouca variância, e com o propósito de manter linha dura, para o gênero feminino estar bem dentro do cerco, do cercado, das rédeas, do cabresto social machista. E que devem se configurar como opostas às masculinas; a doçura, a delicadeza, a submissão, a fragilidade, em maior ou menor grau de incentivo, é o que a micro sociedade (termo macro ou micro sociedade é tirado da teoria familiar sistêmica, que a utiliza) - a família incentiva.

Portanto, dei algumas voltas necessárias, pra falar que o ódio ao gênero além de ser aprendido, primeiramente pelo núcleo familiar, em que este apreende da cultura vigente, e compartilhada socialmente, ao passo que cresce em escala global de influências, externas e internas.
Ódio ao gênero não é específico à determinada pessoa, e/ou grupo, mas é antes um ressentimento contra uma cultura determinante de padrões normativos e doentios, que atropelam um desenvolvimento natural da pessoa - seja que gênero for.

Esse ressentimento é uma semente que cresce à medida que se colocam os "nãos" sociais ao indivíduo em formação. As barreiras cada vez mais difíceis, mais intransponíveis à realização pessoal, afetiva e sexual do sujeito. O ódio ao gênero é como um rechaço às atribuições de qualidades que se 'deve' ou 'deveria' ter, em oposição àquelas que realmente temos, sentimos, e somos.

A maneira como é retratada a misoginia (ou mais raramente a misandria, pois é menos visível e realmente mais rara, já que a sociedade é predominantemente machista e patriarcal, logo, misandria é minoria, também), nos filmes, nos livros, nos documentos históricos, nos quadrinhos de época, games, música, e em redutos de prevalência masculina, ou é de escárnio, de violência pura e gratuita, ou ambas. E reforçam a ideia, demonstram o grau de ressentimento transformado em ódio, tanto individual quanto cultural.

É uma revolta que repudia, mas distorcida, sobre a cultura machista. Ou seja, é ainda uma maneira infantilizada e violenta de lidar com todos os ''nãos" anteriores, toda a dominação sobre os papéis de gênero e sexuais das pessoas.

Tanto é, que quando desejamos reformas e mudanças na cultura, e práticas de uma sociedade, recorremos à passeatas e manifestações públicas na rua, envolvendo a todos e chamando a todos a atenção para mudanças, plebiscitos, constituintes,... Uma mentalidade moralista e conservadora não se perpetua da noite pra o dia, é preciso séculos de gerações inteiras pra construí-las. É preciso pra combate-las, igualmente, séculos de resistência na educação, na educação aos filhos, na educação à uma cultura como um todo. E uma cultura menos sexista, é cultura de paz e alteridade. É preciso debater sempre que possível, é preciso não perder a chance de se expor, numa roda com amigos, de outros modos; numa sala de aula, de outras formas; de quebrar a herança cultural de dominações de gêneros, de sexualidades, de identidades.
É filosofia de vida para posteridade, com ganhos igualmente a toda uma população. Velhos conceitos, e velhas guerras são inúteis e desgastadas. Um olhar e sentir íntegro constitui essa unificação possível. 
Uma Psicologia realmente engajada com o indivíduo e a sociedade, é a psicologia comprometida com essas reformas sociais que por extensão, é o nosso bem comum.

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