Páginas

março 19, 2015

Alucinação Graffitis

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
ou oba oba, ou melodia
Pra acompanhar meus bocejos
Sonhos matinais

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem essas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia a dia
E meu delírio
É a experiência com coisas reais

Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinza normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas
dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
que canta e requebra
é demais!

Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais.

Alucinação - Belchior  

2 comentários:

  1. Duas letras que falam da cidade cinza e falam também de amor apesar da cidade cinza. Não o amor romântico, mas o "amor pelas misérias", amor para "mudar as coisas". Essas duas músicas associadas me fizeram lembrar de uma terceira, "Não existe amor em SP", de Criolo, que conclui de uma forma pessimista que em SP "ninguém vai pro céu". Belchior e Adriana já haviam mostrado o contrário, foram capazes de amar as coisas das cidades grandes, ou amar apesar das coisas das cidades grandes. Talvez esse amor seja para poucos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu penso que há tantas festas e farras estrondosas pra tentar afastar esse medo da morte, violência, e da miséria, que ronda as pessoas nas cidades. Carnavais, lavagens, e afins...cada vez mais colossais que a outra, e um vazio interno crescente... Essa ilusão de sorrisos e cliques e flashes, nunca enganou a quem põe uma lupa sobre o ser humano. E certamente não engana aquele que se olha no espelho, e vê suas ilusões. O Brasil, eu penso que faz de si mesmo um grande e espalhafatoso humor pastelão porque tem pouca coragem de enfrentar seus dramas reais.

      Excluir