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junho 10, 2015

Notas do Além

"A tradição islâmica proíbe tomar vinho na Terra, mas o Corão promete vinho incessante no Céu. O Corão, que condena o adultério na Terra, também promete belas virgens e gentis mancebos, disponíveis em quantidade, para o gozo eterno no Jardim das Delícias que aguarda os mortos virtuosos.

A tradição católica, amiga do vinho no Aquém, não oferece vinho no Além, onde os eleitos de Deus serão submetidos a uma dieta de leite e mel. E segundo o ditame do Papa João Paulo II, no Paraíso os homens e as mulheres estarão juntos, mas "serão como irmãos".
Por influência da vida ultraterrena, ou por outros motivos, há trezentos muçulmanos mais do que os católicos.

     O Turismo do Depois
  Enterros celestiais, preços terrenos. Por doze mil e quinhentos dólares, você pode ter seu túmulo no Vale do Silêncio: "descanse em paz. Na lua.", oferece a empresa norte-americana Celestis. Inc., que já tem três satélites funerários em órbita. Os foguetes levarão as cinzas dos clientes, partindo da base de Cabo Canaveral. Por um preço adicional de cinco mil e seiscentos dólares, a empresa Earthview oferece um vídeo de lançamento e garante o envio de um epitáfio digital a uma estrela que será batizada com o nome do finado(a).
  Estes foram os dois primeiros epitáfios enviados ao céu:
  "Que vista magnífica."
  "Meu espírito está livre para elevar-se"
 

O Aquém
Estimado senhor Futuro,
de minha maior consideração:

Escrevo-lhe esta carta para pedir-lhe um favor. V. Sa. haverá de desculpar o incômodo. Não, não se assuste, não é que eu queira conhecê-lo. V. Sa. há de ser um senhor muito ocupado, nem imagino quanta gente pretenderá ter este gosto; mas eu não. Quando uma cigana me toma a  mão, saio em disparada antes que ela possa cometer essa crueldade.

E no entanto, misterioso senhor, V. Sa é a promessa que nossos passos perseguem, querendo sentido e destino. E é este mundo, este mundo e não outro mundo, o lugar onde V. Sa nos espera. A mim e aos muitos que não cremos em deuses que prometeram outras vidas nos longínquos hotéis do Além.
 Aí está o problema senhor Futuro. Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam como se fosse uma pelota. Brincam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes os espremem, como se fosse um limão. A continuar assim, temo eu, mais cedo do que tarde, o mundo poderá  ser tão-só uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem água, sem ar, e sem alma. 

É disso que se trata, senhor Futuro. Eu peço, nós pedimos, que não se deixe despejar. Para estar, para ser,
necessitamos que V. Sa. siga estando, que V. Sa. siga sendo. Que V. Sa. nos ajude a defender sua casa, que é a casa do Tempo. Faça por nós esse favor. Por nós e pelos outros: os outros que virão depois, se tivermos um depois.

Saúda V. Sa. atentamente,
Um terrestre."



Feliz reencontro com um livro perdido e recém-achado, O Teatro do Bem e do Mal, 2001, de Eduardo Galeano, na limpeza dos livros da prateleira. Fazer faxina, tem suas recompensas, agora eu descubro... O que não descubro, nem me escapa de perguntar é: Quem nos 'salva' de nós mesmos?
Imagem Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch. 

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