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julho 26, 2015

Quase Clarice

Quem é Clarice? Quem é essa mulher.. É mulher ela?
Vou te dizer quem é. Ela vive num salão enorme, e está rodeada de pessoas, uma festa formal, todos de trajes a rigor, segurando suas taças de prosecco. Ela está sozinha olhando numa janela grande. (Tudo é grande nesse lugar).
Ela se sente só ali. E olha em volta.
E tudo que vê são as pessoas tentando desesperadamente ser quem não são. Ser um outro alguém, longe de si. Tantos sorrisos, perfumes misturados, um esforço grande, que ela tem vontade de gritar. O corpo todo contraído, aperta taça contra o peito, uma vontade de dizer.. Dizer o quê?
Se sente só, se sente sublime, se sente minúscula, e ao mesmo tempo grande... Consegue absorver cada canto de músculo, cada suspiro que é reprimido, cada lágrima estrangulada na garganta. Vive, mas vive num terror imenso de se libertar. Eu perguntaria, como ela consegue? Como consegue respirar? Como é difícil fingir uma alegria plena, quando o que se tem é. Pessoas respirando seus sorrisos treinados, angústias que não cabem dentro, alívios momentâneos. Dores lancinantes. Pequenos espasmos. Fecha os olhos. Se vira de costas. De frente pra a janela. Abre os olhos.
E eu pergunto, quem é ela? Quem é essa mulher... Que mistério é guardado...












Escritos faz tanto tempo, mas parece que foi ontem. O gosto ainda é o mesmo, o sabor ainda é o forte, denso, muitas nuances em camadas enérgicas, de cada gole de Lispector.

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