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outubro 25, 2015

Verbo Ser

O ser sensível é aquele que sente em maior intensidade, em  graus maiores as pequenas coisas ditas, percebidas. As vezes até aquilo que foi deixado por dizer, o não-dito. Sensibilidade é o sentir maior e aguçado das sutilezas, os pequenos tons e notas. 
Envolve às vezes alguma delicadeza também. 
Hoje em dia, é extremamente difícil manter viva essa delicadeza, e a sensibilidade. 
Nas relações os conceitos pré-concebidos, e a espera pela resposta usual, pronta, pré determinada, sintônica com uma maioria, mata as sutilezas, não deixa espaço pro mistério. 
Me sinto quase feliz de me perceber desajustada. Um desajuste social que me lembra a todo momento que não estou na engrenagem de capitalizar-lucrar-investir, minhas emoções e minha sensibilidade.
Apagam as delicadezas, e a própria sensibilidade que alguns teimam em cultivar, apesar de.

A urbe urge. Suas urgências rugidas...
E você tem suas próprias inclinações e sentires pessoais distoantes. Marginais até. Tem que ter o ego e o self  fortes, individuados.Ego é o centro do seu ser, ele precisa existir pra você existir, ou um existe à priori..? De todo modo ele não pode inflar e tomar o mundo todo. Tampouco cometer egocídio, pois seria o suicídio da alma. Ser o si-mesmo. Ser consigo, em confluência de si em si. Self é você. 
Então seguir regras próprias, inclinações, gostos.. Seguir seu centro, seu self, é seguir seu caminho natural.
Pra ser menos abstrata e dar um exemplo, não como carne, se me relaciono com o mesmo sexo, se minha espiritualidade transita pelo matriarcado e o paganismo, se ouço determinadas músicas, etc.. São essas escolhas, gostos, inclinações, orientações que me constituem, estão ligadas afetivamente, espiritualmente a mim; são quem sou, por onde passeio. O autor que melhor descreve isso de que falo é Zigmunt Bauman em  Amor Líquido. As relações em conflito pela indiferença ou excessivo individualismo. A não-percepção de quem o outro é.

As relações que vejo e percebo, em sua maioria, tem quase sempre a dinâmica do poder e do ceder. Dificilmente a do só ser. Ceder ao outro vez ou outra é saudável, ceder sempre, ininterruptamente é abdicar de e do si-mesmo. É preciso ter coragem e persistência pra manter-se atento a seu centro. Com cuidados e o ser sensível que existe em cada. A subjetividade de alguém é tão ampla, tão infinitesimalmente oceânica, como se pode achar que é capturável? Aprisionada em conceitos e gavetas das convenções sociais, determinada pelos pre-conceitinhos minúsculos de cada cabeça-limite...?  
O poder de um sobre o outro quando vejo um gritar pra ser ouvido, ou gritar pra anular o outro, eclipsa-lo, emudecê-lo. Melhor é dar ouvidos e ser ouvido em retorno. Tem alguém, algum poeta na certa, que disse que temos que gritar pra que nossa voz chegue ao coração do outro, que está com o coração longe também. Então falamos cada vez mais alto, pra que o outro lá longe, escute talvez. 

Outro ser sensível de que gosto, chamado Rubem Alves, disse que há muitos cursos de oratória, mas nenhum de escutatória. Porque escutar é tão mais raro quanto amar ou silenciar. Pra mim ambos parte um do outro. E a voz interior que nos habita e que ignoramos nos diz pra escutar, ver, observar, perceber. Sentir sua integralidade.  Suas qualidades demonstráveis, os defeitos ocultados, suas profundezas misteriosas. Contemplar, é um tipo de meditação atenta, que praticada, nos eleva a percepção. 
Saramago escreveu em prefácio: ''se podes ver, enxerga''

Esse mundo não é só feito de sins e nãos, mas principalmente de ambivalências sentidas, de meios-termos, de meios-tons nem tão geniais, nem tão imperfeitos. Demasiado humano, o verbo ser.