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novembro 23, 2015

A Alma do Homem

"Aquilo que chamamos de consciência civilizada não tem cessado de afastar-se dos nosso instintos básicos. Mas nem por isso os instintos desapareceram: apenas perderam contato com a consciência, sendo obrigados a afirmar-se de maneira indireta. Podem fazê-lo através de sintomas físicos, como no caso de uma neurose, ou por meio de incidentes de vários tipos, como humores inexplicáveis, esquecimentos inesperados, e lapsos de palavra.
O homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma. Mas enquanto for incapaz de controlar os seus humores e emoções, ou de se tornar consciente das inúmeras maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes se insinuam nos seus projetos e decisões, certamente não é seu próprio dono. Esses fatores inconscientes devem sua existência à autonomia dos arquétipos. O homem moderno, para não ver essa cisão do seu ser, protege-se com um sistema de "compartimentos".Certos aspectos de sua vida exterior e do seu comportamento são conservados em gavetas e separadas e nunca confrontados uns com os outros.

(...) Esse é um aspecto da mente ¨cultural¨ moderna que merece nossa atenção. Revela um alarmante grau de dissociação e confusão psicológica . Se, por um instante, considerarmos a humanidade como uma só pessoa, verificaremos que a raça humana lembra uma pessoa arrebatada por forças inconscientes. Também ela gosta de colocar certos problemas em gavetas separadas. Exatamente por isso deveríamos examinar com mais atenção o que fazemos, pois a humanidade hoje em dia está ameaçada por perigos mortais criados por ela mesma, e que já escapam de seu controle. Nosso mundo encontra-se, pode-se dizer dissociado como se fosse uma pessoa neurótica, com a Cortina de Ferro a marcar-lhe uma linha divisória simbólica.   O homem ocidental, consciente da busca agressiva de poder do Oriente, vê-se forçado a tomar medidas extraordinárias de defesa enquanto, ao mesmo tempo, vangloria-se de suas virtudes e boas intenções.
O que ele deixa de ver é que são os seus próprios vícios - que dissimula com muitas boas maneiras no plano internacional - que lhe são atirados de volta ao rosto metodicamente e sem nenhum pejo pelo mundo comunista. O que o Ocidente tem tolerado (mentiras diplomáticas, decepções contínuas, ameaças veladas), mas em segredo e um pouco envergonhado, é-lhe devolvido frontal e prodigamente, pelo Oriente, que nos amarra a todos com muitos ¨laços¨ neuróticos. É o rosto de sua própria sombra malévola que faz caretas ao homem ocidental, do outro lado da Cortina de Ferro".
         O Homem e seus Símbolos, Carl G. Jung, 2 ed especial -Rio de Janeiro, 2008;  p. 104-105

¨O Sétimo Selo¨ (Dir. Ingmar Bergman)


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