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novembro 24, 2015

A Importância dos Sonhos


''O homem utiliza linguagem escrita ou falada para expressar o que deseja comunicar. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos. [...]
 O que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós. Muitos monumentos cretenses, por exemplo, trazem o desenho de um duplo enxó. Conhecemos o objeto, mas ignoramos suas implicações simbólicas. Tomemos como outro exemplo o caso de um indiano que, após uma visita à Inglaterra, contou aos seus amigos que os britânicos adoravam animais, isso porque vira inúmeros leões, águias e bois nas velhas igrejas. Não sabia (tal como muitos cristãos) que estes animais são símbolos dos evangelistas, símbolos provenientes de uma visão de Ezequiel que por sua vez, é análogo a Horus, o deus egípcio do Sol e seus quatro filhos. Existem, além disso, objetos como a roda e a cruz, conhecidos no mundo inteiro, mas que possuem, sob certas condições, um significado simbólico. O que simbolizam exatamente ainda é motivo de controversas suposições. [...]

Assim, uma palavra ou imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto "inconsciente" mais amplo, que nunca é precisamente definido, ou inteiramente explicado. E nem podemos ter esperanças de tentar de defini-lo ou explicá-lo. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a idéias que estão fora do alcance de nossa visão. 
A imagem de uma roda pode nos levar a ideia de um sol "divino". Quando, com toda a nossa limitação intelectual, chamamos alguma coisa de "divina", estamos dando-lhe apenas um nome, que poderá estar baseado em uma crença, mas nunca em uma evidência concreta.  [...]

Há motivos históricos para esta resistência à ideia de que existe uma parte desconhecida na psique humana. A consciência é uma muito recente da natureza e ainda está num estágio ¨experimental¨. frágil, sujeita a ameaças de perigos específicos e facilmente danificável. Como os antropólogos já observaram, um dos acidentes mentais mais comuns entre os povos primitivos, é o que eles chamam de ¨a perda da alma¨ - que significa, como bem indica o nome, uma ruptura (ou, mais tecnicamente, uma dissociação) da consciência.

Entre esses povos, para quem a consciência tem um nível de desenvolvimento diverso do nosso, a ''alma'' (ou psique) não é compreendida como uma unidade. Muitos deles supõem que o homem tenha um "alma do mato" (bush soul) além da sua própria, alma que se encarna num animal selvagem ou uma árvore com os quais o indivíduo possua alguma identidade psíquica. É a isso que o ilustre etnólogo francês, Lucien Lévy-Bruhl denominou de ¨participação mística¨. Mais tarde, sob pressão de críticas desfavoráveis, renegou esta expressão mas julgou que seus adversários é que estavam errados. É um fenômeno psicológico bem conhecido aquele de um indivíduo identificar-se, inconscientemente, com alguma outra pessoa ou objeto.  

Essa identidade entre os povos primitivos toma várias formas. Se a alma do mato é a de um animal, o animal passa a ser considerado uma espécie de irmão do homem. Supõe-se, por exemplo, que um homem que tenha como irmão um crocodilo possa nadar a salvo num rio cheio destes animais. Se a alma do mato for uma árvore, presume-se que a árvore tenha uma espécie de autoridade paterna sobre aquele determinado indivíduo. Em ambos os casos, qualquer mal causado à alma do mato é considerado uma ofensa ao homem. 

Certas tribos acreditam que o homem tem várias almas. Esta crença traduz o sentimento de alguns povos primitivos de que cada ser humano é constituído de várias unidades interligadas apesar de distintas. Isso significa que a psique do indivíduo está longe de ser seguramente unificada. Ao contrário, ameaça fragmentar-se muito facilmente sob o assalto de emoções incontidas. 
Mandala pintada por Jung,; Livro Vermelho



                                                                 O Homem e seus Símbolos; Carl G. Jung, 2 ed especial brasileira, - Rio de Janeiro, 2008. p. 18 -19, 23-24-25-23-24


(À isso, seria chamada cisão do ego, ou uma fragmentação que dá origem às neuroses, de muitos tipos e nomenclaturas. A primeira parte do livro, é escrita por Jung, e evidencia, quão ampla e insondável é, nossa vida guiada por decisões e direcionamentos do Inconsciente. E outra através da linguagem e principalmente depois da escrita como apreendemos o mundo por símbolos

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